sábado, 5 de agosto de 2017

Ainda sobre 1967

Na última coluna escrevi sobre o aniversário do icônico álbum Sergeant Pepper’s dos Beatles. Na ocasião mencionei as diversas transformações que aconteciam no mundo e fatos marcantes como o começo do “verão do amor” em San Francisco e o florescimento do movimento hippie. As artes sempre refletem o momento e com a música não foi diferente. Toda essa movimentação no mundo fez com que 1967 fosse um ano bastante prolífico na música, com uma série de grandes álbuns lançados e estreias em discos incríveis que devem ser lembrados e, principalmente, escutados.
Vários artistas que escreveriam seu nome na história teriam seus primeiros álbuns lançados em 1967. No Brasil, três jovens baianos e um mineiro estreavam em disco: Gilberto Gil com “Louvação”, Caetano e Gal com o disco em dupla “Domingo” e Milton Nascimento com “Travessia”. Tempos de ruptura na música brasileira, até então dominada pela estética da Bossa Nova, mas que logo conheceria as novas sonoridades da Tropicália e do estilo único de Milton e, pouco depois, o Clube da Esquina. Acima do Equador também houve estreias impressionantes. O americano Jimi Hendrix precisou cruzar o Atlântico para achar o seu lugar ao sol na Inglaterra e balançar o mundo com um disco de impacto, “Are You Experienced”, sucesso comercial e de crítica, no qual mostrou ao que vinha com uma guitarra furiosa que influenciaria o rock de maneira decisiva.
Na ensolarada Califórnia, em plena explosão do movimento hippie, duas bandas que representam esse movimento apareciam em Long Play: o The Doors de Jim Morrison e o Grateful Dead de Jerry Garcia e Bob Weir, ambas bandas com discos homônimos. Na costa leste, com uma sonoridade totalmente sombria e fazendo um contraponto ao sonho da paz e amor, vinha o Velvet Underground de Lou Reed com o cultuado “Velvet Underground & Nico”, com a clássica capa da banana criada por Andy Warhol. Fechando a lista de grandes estreias, o disco homônimo da banda Big Brother & The Holding Company trazia nos vocais ninguém menos que Janis Joplin.
Entre artistas já reconhecidos, 1967 foi o ano do lançamento do encontro histórico de Tom Jobim e Frank Sinatra, que fizeram um disco interessante apesar de alguns conflitos na gravação entre o perfeccionista Jobim e o playboy Sinatra. No Brasil, Chico Buarque registrava em seu segundo disco, “Chico Buarque de Hollanda Vol. 2”, clássicos como “Quem te viu, quem te vê” e “Noite dos mascarados”. Na Inglaterra, o “The Cream” de Eric Clapton, Jack Bruce e Ginger Baker vinha com o excepcional “Disraeli Gears”, mostrando o quanto se podia fazer com um trio. Outro destaque foi o retorno às gravações de Bob Dylan, que havia se afastado da música para se recuperar de um grave acidente de moto. Dylan lançou o álbum “John Wesley Harding”, onde ele retorna às suas origens Folk e Country, em um bom disco e que obteve críticas favoráveis, além de ser uma exceção em um ano dominado pelo rock psicodélico. Voltando aos psicodélicos, temos o ótimo “Surrealistic Pillow” do Jefferson Airplane, outra banda de San Francisco e símbolo do movimento hippie. Outro álbum curioso do movimento foi o “Forever Changes” da obscura banda Love. É um grupo sem maior destaque, mas que foi extremamente feliz nesse álbum. No ano, porém, nem tudo foi glória. Tentando pegar carona no sucesso do Sgt. Pepper’s, os Rolling Stones lançaram “Their Satanic Majesties Request”, onde abandonaram suas raízes do Blues e Rhythm & Blues em detrimento do rock psicodélico. Considerado por muitos como um remendo mal feito do Sgt. Pepper’s, definitivamente, ele não figura entre os mais memoráveis dos Stones.
Como se vê, foi um ano musicalmente agitado. Vale a pena garimpar esses e outros álbuns daquele ano, tarefa fácil em tempos de plataformas de streaming e Youtube, e se divertir com esses clássicos. Como sempre digo, eles não são clássicos sem motivos e vale a pena descobrir porque são discos tão cultuados.
(Publicado no Jornal das Lajes, julho de 2017)