sábado, 6 de maio de 2017

O dia em que o rock ficou órfão

Por esses dias chegou a triste notícia de que um dos pioneiros do rock, Chuck Berry, levou sua voz inconfundível e sua guitarra furiosa para tocar em outros planos. Mais que pioneiro, Chuck Berry merece ser chamado, com todas as honras, de um dos pais do rock’n’roll. O rock nasceu de uma fusão de outros estilos, a saber, o country, o blues e o rhythm and blues. Ao final dos anos 40 e começo dos anos 50 havia músicos das três vertentes gravando sonoridades aceleradas de seus estilos que poderiam muito bem serem chamadas de rock, ainda que fosse um embrião do estilo que mudaria a música popular para sempre. Assim, é muito difícil creditar a paternidade a esse ou aquele músico. Mas pode-se afirmar, sem medo de criar polêmica, que a contribuição que Chuck Berry deu ao novo ritmo, seja musicalmente, em sua sonoridade ou mesmo em termos comportamento, o credencia como um dos artistas mais decisivos para o sucesso e consolidação da nova música que viraria a juventude de cabeça pra baixo.
Nascido em Saint Louis, Missouri, sul dos EUA, Chuck Berry foi influenciado desde novo pelo blues e cedo tomou a guitarra como instrumento. O sul dos Estados Unidos era dividido racialmente até na música: blues para os negros e country para os brancos. O blues era seu estilo favorito, mas Berry começou a colocar músicas e elementos do Country no seu repertório, o que inicialmente causou estranhamento no seu público negro, mas que aos poucos acabou sendo aceito. E essa mistura mais tarde abriria as portas do público branco para sua música. Berry foi para Chicago, onde o blues encontrava seu espaço com a ajuda da gravadora Chess. Muddy Waters promoveu o encontro de Berry com Leonard Chess, um dos donos da gravadora, que se impressionou, não com os blues, mas com os ritmos em que Berry misturava o country e resolveu apostar no artista. O primeiro compacto que ele lançou foi a icônica “Maybellene” que de cara foi para o topo das paradas. Isso foi em 1955 e o rock já dava seus primeiros passos com Elvis Presley, Ike Turner, Fats Domino e Little Richards. Chuck Berry se juntava ao grupo que mais ou menos na mesma época já começava a crescer com Johnny Cash e Jerry Lee Lewis, Bill Halley e Buddy Holly.
Em meio a todos esses grandes artistas que podem ser chamados de pais do rock, Chuck Berry conquistou seu espaço e influenciou o estilo de tal maneira que se ouve ecos de seu som característico até hoje. As bases e solos de guitarra de Berry talvez tenham sido sua maior contribuição ao rock e ela pode ser ouvida claramente nos trabalhos dos Beatles – que gravaram as músicas do mestre “Rock and Roll Music” e “Roll Over Beethoven” e outras tantas em suas carreiras solos – ou dos Rolling Stones e uma infinidade de bandas. Creio que deve ser raro um iniciante na guitarra que não tenha tentado tirar a introdução de “Johnny B. Goode”, uma música de 1958, mas que não perdeu sua força até hoje e já foi regravada incontáveis vezes. Além de sua guitarra, Berry também foi um grande letrista e soube capturar a atenção da juventude dos anos 50 com letras cheias de humor, ironia e duplos sentidos com conotação sexual, em um momento em que esses jovens buscavam seu espaço e a libertação do conservadorismo. Além disso, o próprio Chuck Berry teve uma vida atribulada, com várias passagens em prisões desde novo, e até uma rebeldia contra o establishment, ao tentar gerenciar sua carreira de forma independente para não ser passado para trás em cachês de shows e contratos.
Por tudo isso pode-se dizer sem medo que Chuck Berry lançou as bases do que seria o rock nos anos seguintes, não só em termos de música e sonoridade, mas também de comportamento. Se o rock representou a voz de toda uma geração, Chuck Berry foi, sem dúvida, um de seus principais amplificadores. Por hora, nada de chorar a perda desse músico e sim ouvir sua música, que ainda vai tocar por muito tempo.
(Publicado no Jornal das Lajes, abril/2017)

Nenhum comentário:

Postar um comentário