domingo, 19 de março de 2017

Elis, inigualável

É muito legal ver a obra e memória de Elis Regina, que faria 72 anos nesse mês, voltar com tudo, com direito a filme e nova biografia, ambos lançados em um intervalo de menos de dois anos. Sobre o filme, eu não vou falar para não ser redundante e deixo com vocês a resenha do amigo historiador e pesquisador de música popular Luiz Henrique Garcia (leia AQUI). Já a biografia “Elis Regina – nada será como antes”, escrita pelo jornalista Julio Maria, eu terminei de ler por esses dias e recomendo a leitura.
A primeira coisa a se elogiar é a coragem na escolha do tema. Afinal, Elis Regina não era simplesmente uma grande cantora. Ainda em vida foi louvada como uma das maiores cantoras do país, senão a maior. Ao se encantar tão jovem, com apenas 36 anos, entrou para o panteão das lendas. Elis deixou na música brasileira um vácuo, um posto vazio da grande cantora que era praticamente unanimidade e certeza de grandes interpretações. Logo, não é tarefa fácil para qualquer autor escolher um personagem tão conhecido, já que o trabalho com certeza será escrutinado nos detalhes. Porém, Julio Maria fez seu dever de casa com uma pesquisa muito bem feita e complementada por entrevistas com os personagens mais importantes, fato que deixa a narrativa bem mais interessante e recheada de histórias curiosas.
Outro mérito do trabalho vem da complexidade da própria personagem de Elis. Uma cantora brilhante, que com pouca idade já se destacava como vencedora de festivais e apresentadora de um popular programa de TV, mas também uma pessoa cheia de inseguranças e com um espírito extremamente competitivo, que levou a artista a polêmicas nada honrosas, envolvendo principalmente outras cantoras. Assim, seria muito fácil um autor resvalar para um dos dois extremos, o da hagiografia – a biografia da vida de santos – ou, em bom português, a tradicional “rasgação de seda” ou para o folhetim de fofocas. Julio Maria conseguiu se equilibrar muito bem e contar a história que precisava ser contada. Naturalmente, ele se debruça em alguns aspectos complexos de Elis, como a relação conturbada com a família ou os problemas enfrentados em seus casamentos com Ronaldo Bôscoli e César Camargo Mariano (e os seus affairs extraconjugais) e tenta analisar com alguma profundidade além da mera narração de eventos. Porém, Júlio o faz com elegância, sem pieguices ou análises rasas e lineares.
Por fim, Julio Maria não poupou em seu livro a descrição do gênio complicado e explosivo de Elis. Suas rusgas com outras cantoras e histórias nada dignificantes como as querelas com Nara Leão ou Alaíde Costa estão lá. Bem como o assunto espinhoso do uso de cocaína, que cobrou de Elis o preço máximo. Ou a difícil patroa que pagava os melhores cachês aos seus músicos, mas que cobrava uma lealdade canina, além do desempenho irretocável, à altura da sua voz. Mas o livro também retrata Elis como a mãe dedicada e a pessoa que peitou a polícia em dias de ditadura para ajudar Rita Lee, com quem quase não tinha relação, a sair da cadeia por porte de drogas e a se reerguer financeiramente, gravando músicas dela.
Acima de tudo, o livro pinta em cores vivas a artista brilhante que foi Elis, dona de uma voz sem igual e respeitada por instrumentistas por entender seu trabalho muito além do que se esperaria de uma cantora. E cuja dedicação à música e perfeccionismo a transformou em uma exímia garimpeira de ouro escondido no trabalho de artistas ainda desconhecidos e por ela promovidos, em uma lista que vai de Milton Nascimento a Renato Teixeira, passando por João Bosco e Ivan Lins. E é justamente a música o ponto alto do livro, como não podia deixar de ser. O autor conta com detalhes a produção e gravações de vários álbuns de Elis e de seus espetáculos que marcaram época, como “Falso Brilhante”. Enfim, um trabalho completo e que honra a memória da inigualável Elis e, principalmente, sua obra. Será que ainda veremos outra cantora tão incrível assim?
(Publicado no Jornal das Lajes, em março/2017)

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