Os novos tempos de Youtube e Netflix têm sido particularmente divertidos para um apaixonado por música como eu. Essas plataformas deixaram ao alcance de muita gente um número incrível de filmes e documentários que contam histórias de bandas, artistas e até movimentos musicais. Eu me interesso muito por documentários, pois é a chance de ouvir as histórias e opiniões diretamente da boca de quem foi personagem principal. Mesmo quando você conhece razoavelmente do assunto, sempre tem uma história de bastidor ou um caso divertido que traz um tempero interessante. A variedade de títulos cobre estilos diversos, como o punk ou disco music, artistas como Sinatra ou Janis Joplin e até histórias focadas na gravação de um álbum específico. Recentemente cruzei por dois documentários muito interessantes por trazerem fatos desconhecidos e me fazerem rever opiniões.

O primeiro foi “The Wrecking Crew”, que conta a história de um grupo de músicos de estúdio que se notabilizou no final dos anos 50. Não era um grupo fechado, mas contava com algumas figuras que se cruzavam no estúdio com frequência como os guitarristas Tommy Tedesco e Glen Campbell, a baixista Carol Kaye, o baterista Hal Blaine e o tecladista Leon Russel. Fora Leon Russel e Glen Campbell, que tiveram sucesso em carreira solo, provavelmente você não ouviu falar deles. Porém, não vai imaginar a quantidade de músicas em que eles tocaram. Só o baterista Hal Blaine participou da gravação de cerca de 40 músicas que atingiram o primeiro lugar nas paradas. Além disso, foram a base instrumental para artistas como Sonny & Cher, The Mamas & The Papas e até Frank Sinatra. Ou foram os “músicos fantasmas” em álbuns creditados a outros artistas como The Monkees ou The Byrds. Quando Brian Wilson quis romper com a música fácil e produzir um álbum de qualidade para os Beach Boys não teve dúvida. Recrutou os músicos do Wrecking Crew para as bases da sua obra prima “Pet Sounds”, na qual os próprios Beach Boys empregaram somente suas belas vozes. Domínio do instrumento, facilidade para ler partituras e se adaptar a diversos estilos foram os motivos para aqueles músicos serem sempre lembrados para gravar, mesmo sem muito ensaio. O documentário faz pensar sobre as razões do sucesso desse ou daquele artista e sobre a autenticidade da música, além de contar histórias divertidas por trás de hits conhecidos.

O segundo documentário me fez rever conceitos. Quando se fala de rock brasileiro, sempre vinha à minha cabeça os anos 80 com Legião Urbana, Barão Vermelho e companhia. O recém-lançado “Sem Dentes: Banguela Records e a Turma de 94” me mostrou (ou relembrou talvez) a qualidade do rock produzido nos anos 90, que trouxe à cena Chico Science, Raimundos, Mundo Livre S/A, Skank, Pato Fu e outros. A grande inspiração dessa geração foi o Sepultura, que alcançou sucesso mundial com um trabalho totalmente independente. O lendário jornalista, e depois produtor, Carlos Eduardo Miranda garimpou incansavelmente artistas oriundos de cenas locais de Recife, Brasília e Belo Horizonte e convenceu os Titãs a lançarem, em parceria com a Warner Music, um selo, o Banguela Records, para promover novos talentos. O documentário é bastante rico em entrevistas e material como as versões de divulgação (as famosas fitas demo) de músicas que ficariam famosas nos anos seguintes. Também conta a história de bandas promissoras, mas que, por motivos diversos, apenas “bateram na trave” e hoje fazem parte de uma espécie de “memorial cult” por suas qualidades. A história dá uma pista sobre a difusão de selos independentes nos anos seguintes e também a ponte com o som que viria depois, como Charlie Brown ou Los Hermanos. Definitivamente, vou voltar em alguns discos daquela época e ampliar meus horizontes. Antes tarde do que nunca.

Essa é só uma amostra de coisas interessantes rolando nas telas. Esses documentários são uma chance valiosa de se conhecer novos nomes ou se divertir com casos curiosos contados por seus artistas favoritos. Vale gastar um tempo pesquisando.

(Publicado no Jornal das Lajes, Janeiro de 2017)