domingo, 27 de agosto de 2017

Gravadoras lendárias

Os mais jovens não vão se lembrar, mas houve um tempo em que se comprava música em discos ou fitas. Ou se aguardava ansiosamente para ouvir a música favorita no rádio. Naqueles tempos, quando copiar uma música era um processo demorado e não muito barato (fitas boas não eram tão acessíveis, além de comportar no máximo 90 minutos), quem ditava o rumo da indústria musical eram as gravadoras e selos com seus esquemas de distribuição e divulgação (inclui-se aí o nefasto “jabaculê”, que envolvia pagamentos e presentes aos canais de rádio e TV para favorecer algumas músicas).

Se desde um bom tempo o que guia o trabalho dos artistas das grandes gravadoras é o retorno financeiro, houve uma época na quala qualidade artística era o critério principal para se decidir o lançamento de um álbum ou compacto. Algumas gravadoras se tornaram lendárias por serem dirigidas por quem entendia de música e, sem deixar o lucro de lado, tinha a sensibilidade para saber o que era música boa. Tempos em que diretores e produtores percorriam casas de show atrás de novos talentos e do próximo sucesso. Invariavelmente, essas gravadoras colocavam à disposição dos seus artistas produtores brilhantes, músicos de estúdio competentes e compositores consagrados. Entre essas, podemos citar as estrangeiras Atlantic Records, Chess Records e a Tamla Motown. No Brasil tivemos a EMI-Odeon, a Philips/Phonogram e a Elenco.

A Atlantic foi fundada pelos irmãos turcos radicados nos EUA Ahmet e Nesuhi Ertegun. Nos anos 50 se notabilizou pelos trabalhos de jazz, Rhythm & Blues e soul. Nesse período, teve no seu time artistas como Aretha Franklin, Ray Charles e Otis Redding. No final dos anos 60 abraçou o rock e foi a gravadora que lançou o Led Zeppelin, o trio Crosby, Stills & Nash (e depois quarteto, com Neil Young) e ainda contou com artistas como o The Cream (cujo álbum histórico “Disraeli Gears” foi gravado nos estúdios da Atlantic em Nova Iorque) e o Yes. A Atlantic trabalhou com produtores do calibre de Phil Spector, Tom Dowd e a dupla Jerry Lieber e Mike Stoller, os autores de clássicos como “Hound Dog”, “Stand by Me” e “Jailhouse Rock”.

A Chess foi fundada pelos irmãos Phil e Leonard Chess em Chicago e é creditada pelo resgate do blues americano nos anos 50, além de abrir as portas para artistas negros nos primórdios do rock, como Chuck Berry. Nos anos 50 e 60, com o panorama da música pop em mudança, a Chess promoveu nomes do tradicional blues como Howlin’ Wolf, Muddy Waters e Willie Dixon. A influência desses artistas chegaria ao outro lado do Atlântico, causando uma revolução no rock inglês com a “eletrificação” do blues promovida por Eric Clapton, os Rolling Stones e outros. Os Stones inclusive pagariam um tributo aos mestres gravando um disco no estúdio mais famoso da Chess, localizado no número 2120 da South Michigan Avenue. Do time de músicos de estúdio da Chess ainda saiu o núcleo do renomado Earth, Wind & Fire.

Um traço comum a esses selos era o fato de que os seus donos se envolviam profundamente na seleção de artistas e produção dos trabalhos. Porém, à medida em que a música pop se tornava um negócio milionário, esse panorama foi se alterando. Os custos crescentes para divulgação, distribuição de discos e assinaturas de contratos naturalmente empurraram esses selos para os braços de corporações maiores como a Warner, que comprou a Atlantic. Gradualmente a liberdade artística foi substituída pela busca de fórmulas mágicas que garantissem o sucesso instantâneo de músicas e novos artistas. E produtores e diretores que conheciam música foram trocados por executivos engravatados preocupados só com os números financeiros. Tempos tristes para a música.

Aqui no Brasil também passamos por transformações parecidas: de tempos nos quais álbuns sem compromisso comercial algum, como o “Clube da Esquina”, ainda eram lançados para dias de música quase padronizada. Mas essa história fica para outra oportunidade, assim como a de outra gravadora lendária que virou praticamente adjetivo do som que produzia, a Motown. Que 2016 seja um bom ano para todos e para a música.

(texto publicado no Jornal das Lajes, janeiro de 2016)

sábado, 19 de agosto de 2017

De rock também vive a viola

O ano de 2016 começou animado com o lançamento de discos. No último dia 17 de janeiro a dupla de violeiros Ricardo Vignini e Zé Helder lançou o álbum Moda de Rock II, de viola instrumental. Viola no rock? Isso mesmo. E a mistura dá liga e é saborosa. O Moda de Rock é um trabalho que estreou em 2011, quando os violeiros resolveram trazer para a linguagem da viola caipira uma paixão comum, o rock. No primeiro disco a dupla apresentou clássicos como “Kashmir” (Led Zeppelin), “Kaiowas” (Sepultura) e “In the Flash” (Pink Floyd). Mais do que simplesmente versões executadas na viola, eles primam por incorporar aos arranjos os ritmos tradicionais de viola como o cururu, cateretê e o pagode de viola, promovendo uma verdadeira fusão dos estilos. A combinação deu certo e agradou, fato que rendeu à dupla diversas aparições em programas de TV, além de centenas de shows que contaram até com participações de guitarristas consagrados como Pepeu Gomes, Kiko Loureiro e Andreas Kisser.
E agora, cinco anos após o sucesso do primeiro disco, eles surpreendem com outro álbum excelente no qual retomam a fórmula viola-rock, mas sem se repetir ou parecer mais do mesmo. Falando primeiro do lançamento, assisti ao show no Teatro Paulo Autran em São Paulo e já fiquei feliz por ver casa cheia e saber que ainda tem muita gente que sai de casa para assistir a um show de música instrumental. E de viola caipira, em plena metrópole de concreto de São Paulo. A dupla desfilou virtuosismo e entrosamento em um show de primeira, com direito à participação especial do lendário Robertinho do Recife. Sobre o disco, o mais importante de que se pode dizer é que talvez tenha sido até mais corajoso do que o primeiro, já que a dupla colocou um pouco mais de peso no repertório com a escolha de vários clássicos do Heavy Metal.
Quando se pensa em viola caipira, em um primeiro instante vem à lembrança seu caráter melódico, solos sentidos e cheios de emoção, fato que casa muito bem com baladas de rock, que a dupla soube explorar em versões de “Laguna Sunrise” (Black Sabbath), “I Want To Break Free” (Queen) e “Why Worry” (Dire Straits). Essa última virou uma toada na viola, e a conexão dos estilos ficou clara no show, com um belo incidental instrumental de “Chico Mineiro”. A viola, porém, tem também um outro lado de instrumento de acompanhamento rítmico e sua tradição carrega ritmos vigorosos como o pagode de viola, o chamamé e o recortado, que incorporam elementos de efeito percussivo como o rasqueado, de origem ibérica, e o abafamento das cordas com a própria mão do ritmo. Ritmos complexos, mas que os violeiros Vignini e Zé Helder executam com perfeição e conferem peso ao juntar a viola com o Heavy Metal de “Refuse/Resist” (Sepultura), “Raining Blood” (Slayer), “Thunderstruck” (AC/DC) ou “Wasted Years” (Iron Maiden). Além disso, a dupla ousa em arranjos complexos e ricos como “Diary Of a Madman” de Ozzy Osbourne.
A beleza e originalidade das versões, porém, não poupam os artistas de críticas e, volta e meia, eles são atacados por fãs mais radicais de um estilo ou outro. Os caipiras, que não aceitam a viola se prestando para música de gringo, ou roqueiros que não admitem outro instrumento que não guitarras distorcidas. Felizmente, estes “fundamentalistas” são exceção, como eu mesmo pude testemunhar em outro show da dupla, que reuniu na mesma plateia a turma do chapelão, no melhor estilo Tião Carreiro, e os metaleiros com suas tradicionais camisas pretas. Afinal, que instrumento melhor do que a viola para fazer uma ponte entre extremos aparentemente irreconciliáveis? A viola tradicionalmente sempre conviveu entre opostos, como o religioso e o profano, ou Deus e o Sem Nome. O mesmo violeiro que louvava os santos em festas religiosas era quem agitava os bailes e recorria a pactos com o Coisa Ruim para apurar sua técnica. E assim Ricardo Vignini e Zé Helder mantêm a tradição fazendo uma ponte bonita e original da nossa viola com rock. Para se conferir e não se arrepender.
(Texto publicado no Jornal das Lajes, fevereiro de 2016)

As pedras que ainda rolam e lançam bons discos

O fim de 2016 viu o lançamento de mais um álbum dos veteranos, mas ainda enérgicos, Rolling Stones. Um disco despretensioso, mas ainda assim com qualidade para mostrar que os Stones não se tornaram clássicos por sorte (muito menos pela beleza, se me permitem a brincadeira). Eles se confundem com a história do rock e contribuíram muito para a popularização desse estilo. E já nos seus setenta anos ainda protagonizam performances grandiosas e quentes como pode ser visto no show em Cuba no ano passado, que virou um documentário (“Havana Moon”, que já está sendo mostrado no canal Bis da TV a cabo). Mas um currículo notável não é salvo-conduto para se produzir qualquer coisa. Pelo contrário, há sempre uma pressão grande por parte de público e crítica (os últimos em especial) para não deixar a qualidade cair, e, definitivamente, eles passaram longe de decepcionar.
Os Rolling Stones vieram com “Blue & Lonesome”, um disco que traz somente gravações de outros artistas, sem faixas com a tradicional assinatura “Jagger/Richards”. Mas não sem um motivo, já que resolveram fazer um mergulho no estilo e artistas que foram sua maior influência: o blues e seus heróis como Howlin’ Wolf, Little Walter e Willie Dixon. Foi o gosto comum pelo blues que aproximou Mick Jagger e Keith Richards: no primeiro instante para compartilhar discos e depois para tocar juntos. E o nome da banda vem do título de uma canção de um dos grandes mestres, Muddy Waters. Grandes devotos do blues, os Stones sempre registraram em seus álbuns clássicos como “Love in Vain”, de Robert Johnson, ou “Little Red Rooster”, de Willie Dixon. E ao falar dessa última música, é preciso abrir um parêntese para a grande contribuição dos Stones ao estilo, ao dá-lo visibilidade e praticamente promover o seu renascimento em sua própria terra, os EUA.
No fim dos anos 50 e começo dos 60 o blues andava em baixa nos EUA, mas florescia no outro lado do Atlântico, na Inglaterra de Jagger, Richards, Eric Clapton e John Mayall. Endeusados por esses artistas, nomes como Muddy Waters ou Howlin’ Wolf passavam dificuldades, perdendo vendas para o rock que havia conquistado a juventude. A redescoberta pelos ingleses fez com que o estilo viajasse de volta para os EUA e desse a justa projeção aos artistas que fazem parte da gênese do rock. Os Stones puseram “Little Red Rooster” no topo da parada britânica em 1964 ajudando a dar destaque para o blues eletrificado no melhor estilo de Chicago e da lendária Chess Records (gravadora sobre a qual já escrevi nessa coluna). Em suas primeiras turnês nos EUA, os Stones fizeram questão de convidar os mestres para suas aparições na TV, além de registrar algumas faixas no estúdio da Chess.
Com todo esse histórico e autoridade, os Stones apresentam um disco que é um tributo aos seus mestres e passa longe de ser uma imitação barata ou “mais do mesmo”. A gaita de Mick Jagger é competente e autêntica e faz frente a gaitistas de profissão. E seus vocais são precisos e sem grandes afetações, pecado que Jagger tem cometido recentemente. Aqui ele soa simples e direto como um autêntico blues exige. As guitarras de Ron Wood e Keith Richards têm sua devida proeminência, já que a base do disco é enxuta, com apenas alguns teclados e percussão somados ao quarteto mais o baixista Darryl Jones. A bateria de Charlie Watts, como sempre, é segura e irretocável. E para fechar com chave de ouro, ainda há a participação mais que especial de outro mestre do blues, Eric Clapton, que aparece em duas faixas com uma sonoridade que faz lembrar seu início de carreira na banda de John Mayall, quando era um purista do estilo.
Enfim, quem gosta de blues não pode perder esse disco, que faz um belo resgate da sonoridade eletrificada da escola de Chicago. E quem gosta de Stones, mas não conhece suas origens, é perfeito para entender a banda e quais foram suas verdadeiras influências.

(Publicado no Jornal das Lajes, fevereiro de 2017)

sábado, 5 de agosto de 2017

Ainda sobre 1967

Na última coluna escrevi sobre o aniversário do icônico álbum Sergeant Pepper’s dos Beatles. Na ocasião mencionei as diversas transformações que aconteciam no mundo e fatos marcantes como o começo do “verão do amor” em San Francisco e o florescimento do movimento hippie. As artes sempre refletem o momento e com a música não foi diferente. Toda essa movimentação no mundo fez com que 1967 fosse um ano bastante prolífico na música, com uma série de grandes álbuns lançados e estreias em discos incríveis que devem ser lembrados e, principalmente, escutados.
Vários artistas que escreveriam seu nome na história teriam seus primeiros álbuns lançados em 1967. No Brasil, três jovens baianos e um mineiro estreavam em disco: Gilberto Gil com “Louvação”, Caetano e Gal com o disco em dupla “Domingo” e Milton Nascimento com “Travessia”. Tempos de ruptura na música brasileira, até então dominada pela estética da Bossa Nova, mas que logo conheceria as novas sonoridades da Tropicália e do estilo único de Milton e, pouco depois, o Clube da Esquina. Acima do Equador também houve estreias impressionantes. O americano Jimi Hendrix precisou cruzar o Atlântico para achar o seu lugar ao sol na Inglaterra e balançar o mundo com um disco de impacto, “Are You Experienced”, sucesso comercial e de crítica, no qual mostrou ao que vinha com uma guitarra furiosa que influenciaria o rock de maneira decisiva.
Na ensolarada Califórnia, em plena explosão do movimento hippie, duas bandas que representam esse movimento apareciam em Long Play: o The Doors de Jim Morrison e o Grateful Dead de Jerry Garcia e Bob Weir, ambas bandas com discos homônimos. Na costa leste, com uma sonoridade totalmente sombria e fazendo um contraponto ao sonho da paz e amor, vinha o Velvet Underground de Lou Reed com o cultuado “Velvet Underground & Nico”, com a clássica capa da banana criada por Andy Warhol. Fechando a lista de grandes estreias, o disco homônimo da banda Big Brother & The Holding Company trazia nos vocais ninguém menos que Janis Joplin.
Entre artistas já reconhecidos, 1967 foi o ano do lançamento do encontro histórico de Tom Jobim e Frank Sinatra, que fizeram um disco interessante apesar de alguns conflitos na gravação entre o perfeccionista Jobim e o playboy Sinatra. No Brasil, Chico Buarque registrava em seu segundo disco, “Chico Buarque de Hollanda Vol. 2”, clássicos como “Quem te viu, quem te vê” e “Noite dos mascarados”. Na Inglaterra, o “The Cream” de Eric Clapton, Jack Bruce e Ginger Baker vinha com o excepcional “Disraeli Gears”, mostrando o quanto se podia fazer com um trio. Outro destaque foi o retorno às gravações de Bob Dylan, que havia se afastado da música para se recuperar de um grave acidente de moto. Dylan lançou o álbum “John Wesley Harding”, onde ele retorna às suas origens Folk e Country, em um bom disco e que obteve críticas favoráveis, além de ser uma exceção em um ano dominado pelo rock psicodélico. Voltando aos psicodélicos, temos o ótimo “Surrealistic Pillow” do Jefferson Airplane, outra banda de San Francisco e símbolo do movimento hippie. Outro álbum curioso do movimento foi o “Forever Changes” da obscura banda Love. É um grupo sem maior destaque, mas que foi extremamente feliz nesse álbum. No ano, porém, nem tudo foi glória. Tentando pegar carona no sucesso do Sgt. Pepper’s, os Rolling Stones lançaram “Their Satanic Majesties Request”, onde abandonaram suas raízes do Blues e Rhythm & Blues em detrimento do rock psicodélico. Considerado por muitos como um remendo mal feito do Sgt. Pepper’s, definitivamente, ele não figura entre os mais memoráveis dos Stones.
Como se vê, foi um ano musicalmente agitado. Vale a pena garimpar esses e outros álbuns daquele ano, tarefa fácil em tempos de plataformas de streaming e Youtube, e se divertir com esses clássicos. Como sempre digo, eles não são clássicos sem motivos e vale a pena descobrir porque são discos tão cultuados.
(Publicado no Jornal das Lajes, julho de 2017)

domingo, 18 de junho de 2017

Sergeant Pepper’s: 50 anos e contando...

Nos anos 60 o mundo passava por grandes transformações com profundas implicações para toda a sociedade. O mundo vivia sob a sombra da guerra fria e o risco de um conflito nuclear, além de mudanças que balançavam a ordem geopolítica e envolviam toda a sorte de revoluções e conflitos armados. Nesse caldeirão havia uma juventude que acreditava na mudança através do poder da flor e do amor e buscava alternativas embalados pelo som do rock’n’roll e por drogas para expandir os limites da consciência. Imersos nesse momento e, ao mesmo tempo, se tornando um dos seus principais influenciadores, os Beatles colocam no mercado um álbum cujas implicações iriam muito além da música popular e se tornaria um marco da produção fonográfica, o “Sergeant Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, que acaba de completar cinquenta anos e segue relevante.
O evento está sendo tão celebrado que pensei em não escrever a respeito, já que tem muita gente fazendo-o com propriedade. Mas depois de ver no jornal Estado de Minas uma montagem parodiando a capa do Sgt. Pepper’s com os envolvidos nos escândalos de corrupção, ficou claro que eu não podia deixar a data passar em branco, dado o impacto cultural e musical desse disco. Na época, os Beatles sofriam com a loucura que se tornou a beatlemania: gente se machucando nos shows por conta de fãs descontrolados e performances de péssima qualidade, consequência da gritaria que impedia que eles se ouvissem no palco. Decidiram então abandonar os shows para se dedicarem exclusivamente ao trabalho de estúdio.
Deram então continuidade à experimentação e sofisticação de arranjos que já havia começado no álbum anterior, “Revolver”, sem a menor preocupação de executar ao vivo as faixas. Além disso, criaram uma espécie de alter-ego, a fictícia banda do Sargento Pimenta que faria o seu “show” ao longo do disco. As temáticas das músicas são aparentemente despretensiosas: cenas cotidianas – que falam do trabalho de uma leitora de parquímetros (“Lovely Rita”) ou de alguém que reforma sua casa (“Fixing a Hole”) – ou lembranças da infância pintadas nas clássicas “Penny Lane” e “Strawberry Fields Forever”. Sobre essas últimas duas, vale uma nota. Foram as primeiras músicas gravadas para o trabalho, mas, por pressão da gravadora, acabaram lançadas em compacto – prática comum da época – e não entraram no disco, decisão da qual se arrependeriam depois.
Apesar da suposta inocência dos temas, as músicas se encadeiam com tal coesão que fizeram que o disco fosse prontamente identificado como um álbum conceitual, isto é, um trabalho que gira em torno de um tema e não é uma mera reunião de faixas. Isso era algo inédito na época e passou a ser perseguido pelos artistas. Um exemplo pode ser visto no Brasil. Caetano, Gil, Mutantes e companhia estavam trabalhando no disco “Tropicália”, que reuniria algumas faixas de cada participante. Após o lançamento de Sgt. Pepper’s, os planos foram revistos e o lançamento adiado para que pudessem trabalhar em um disco que tivesse conexão do começo ao fim. Além disso, Sérgio Dias dos Mutantes admitiu que o arranjo de sopros de “Panis et Circenses” são inspiração direta do trompete de “Penny Lane”.
No plano cultural, sua estética psicodélica veio a calhar com o momento em que nascia o movimento hippie e começava o “Verão do Amor” de 67, fazendo com que o disco estendesse sua influência para esferas além da música, como a moda e as artes plásticas. Em suma, é difícil falar em um espaço de uma coluna de jornal sobre um disco que já rendeu documentários, livros e teses de doutorado. Mas eu tento resumir porque vale a pena ouví-lo com cuidado: são os Beatles em um pico de criatividade, trabalhando juntos e em perfeita sintonia e com o suporte um produtor talentoso (George Martin) em um trabalho que influenciou toda a música e artes modernas. É difícil chegar ao fim do disco sem sair maravilhado com o que pode ser feito com criatividade e apenas um modesto gravador de quatro canais.
(Publicado no Jornal das Lajes, junho de 2017)

sábado, 10 de junho de 2017

O Bruxo

No mês de abril acabou me passando desapercebido que esta coluna completou três anos no Jornal das Lajes, fato que só tenho a comemorar e mais uma vez agradecer ao JL a oportunidade para falar sobre música, a arte que faz parte de nossa vida de uma forma muito intensa. Nesse tempo falei de muita coisa interessante que ouvi ou li por aí, porém, me dei conta de uma omissão séria em termos de assunto: a música instrumental. A música instrumental brasileira reflete o caldeirão cultural que é nosso país: ao mesmo tempo, é fortemente influenciada pelo improviso do jazz americano, o rigor clássico europeu, a complexidade dos ritmos africanos e toques regionais que vão das sonoridades gaúchas à música nordestina. E para falar da riqueza desta música creio que não há artista que resume melhor essa diversidade do que Hermeto Pascoal, o “bruxo”, como é chamado por muitos.

Hermeto é daqueles músicos de talento inato. Despertou para arte ainda criança, dedicando-se ao acordeão e percussão, para se tornar um multi-instrumentista que domina o piano, flauta, saxofone e o que vier pela frente. Após passar por orquestras de rádio, tocar em boates e alguns grupos, participou em 1966 da fundação do inovador Quarteto Novo, em companhia de Heraldo do Monte (viola e guitarra), Théo de Barros (baixo) e Airto Moreira (bateria). Esse grupo é lembrado por acompanhar diversos músicos nos anos de ouro dos festivais. Afinal, foram a banda de apoio das icônicas “Ponteio” de Edu Lobo e Capinan e “Disparada” de Geraldo Vandré e Théo de Barros. Porém, o Quarteto Novo é reconhecido por ter trazido para a música instrumental brasileira, até então apoiada nas harmonias do jazz americano e da bossa nova, uma linguagem com forte influência do Nordeste. Infelizmente o grupo teve vida breve e apenas um disco homônimo lançado. Ele se desfez e seus integrantes seguiriam para carreiras solo nas quais tiveram amplo reconhecimento e com Hermeto não foi diferente. Em passagem pelos Estados Unidos impressionou, entre outros, Miles Davis, que gravou duas de suas músicas. A partir daí o prestígio de Hermeto foi aumentando cada vez mais e ele se tornou uma referência na música instrumental mundial.

Por esses dias tive o prazer e o privilégio de assistir a um show da nova turnê de Hermeto que celebra os seus 80 anos. Hermeto Pascoal é uma figura que por si só já chama atenção quando sobe ao palco: com sua vasta cabelereira e barba parece um personagem saído de quadrinhos alternativos dos anos 60 de Gilbert Shelton ou Robert Crumb. Mas é quando a música começa que se tem noção da grandeza e universalidade do seu som. Se você fechar os olhos a sensação é que está rolando no palco um encontro de John Coltrane, Miles Davis, Chick Corea, Villa Lobos, Tom Jobim, Sivuca e Luiz Gonzaga. A música é intensa e combina belos temas com improvisos inspirados. Aliás, a improvisação e as surpresas são a marca do show, pois Hermeto desafia seus músicos todo o tempo a criar dentro do palco. Curiosamente, Hermeto trabalha durante o show como um maestro, regendo seus músicos com seu corpo, seu chapéu ou sua música mesmo. Mas, mesmo fazendo questão de conduzir o som e o show com uma coesão incrível, Hermeto dá plena liberdade para seus músicos voarem alto, seja em grupo ou em improvisos solos. Naturalmente, isso só é possível pois ele se cerca de músicos de primeira linha. Ainda assim, ao final de uma música ou de um improviso desafiador, Hermeto se dirige paternalmente ao músico para cumprimentá-lo com um abraço ou um tapinha nas costas.

Resumindo, a música de Hermeto Pascoal é poderosa. Não conhece limites e não se prende a fórmulas, porém, sem perder de vista, mesmo nos improvisos mais ferozes, os seus belos temas e melodias. E, talvez justamente por não ter limites, a música é universal e com admiradores nos quatro cantos do mundo, mas sem perder o seu pé no Brasil e no Nordeste. Não há nome melhor para se lembrar quando se fala da riquíssima música instrumental feita no Brasil.

(Publicado no Jornal das Lajes, maio de 2017)

sábado, 6 de maio de 2017

O dia em que o rock ficou órfão

Por esses dias chegou a triste notícia de que um dos pioneiros do rock, Chuck Berry, levou sua voz inconfundível e sua guitarra furiosa para tocar em outros planos. Mais que pioneiro, Chuck Berry merece ser chamado, com todas as honras, de um dos pais do rock’n’roll. O rock nasceu de uma fusão de outros estilos, a saber, o country, o blues e o rhythm and blues. Ao final dos anos 40 e começo dos anos 50 havia músicos das três vertentes gravando sonoridades aceleradas de seus estilos que poderiam muito bem serem chamadas de rock, ainda que fosse um embrião do estilo que mudaria a música popular para sempre. Assim, é muito difícil creditar a paternidade a esse ou aquele músico. Mas pode-se afirmar, sem medo de criar polêmica, que a contribuição que Chuck Berry deu ao novo ritmo, seja musicalmente, em sua sonoridade ou mesmo em termos comportamento, o credencia como um dos artistas mais decisivos para o sucesso e consolidação da nova música que viraria a juventude de cabeça pra baixo.
Nascido em Saint Louis, Missouri, sul dos EUA, Chuck Berry foi influenciado desde novo pelo blues e cedo tomou a guitarra como instrumento. O sul dos Estados Unidos era dividido racialmente até na música: blues para os negros e country para os brancos. O blues era seu estilo favorito, mas Berry começou a colocar músicas e elementos do Country no seu repertório, o que inicialmente causou estranhamento no seu público negro, mas que aos poucos acabou sendo aceito. E essa mistura mais tarde abriria as portas do público branco para sua música. Berry foi para Chicago, onde o blues encontrava seu espaço com a ajuda da gravadora Chess. Muddy Waters promoveu o encontro de Berry com Leonard Chess, um dos donos da gravadora, que se impressionou, não com os blues, mas com os ritmos em que Berry misturava o country e resolveu apostar no artista. O primeiro compacto que ele lançou foi a icônica “Maybellene” que de cara foi para o topo das paradas. Isso foi em 1955 e o rock já dava seus primeiros passos com Elvis Presley, Ike Turner, Fats Domino e Little Richards. Chuck Berry se juntava ao grupo que mais ou menos na mesma época já começava a crescer com Johnny Cash e Jerry Lee Lewis, Bill Halley e Buddy Holly.
Em meio a todos esses grandes artistas que podem ser chamados de pais do rock, Chuck Berry conquistou seu espaço e influenciou o estilo de tal maneira que se ouve ecos de seu som característico até hoje. As bases e solos de guitarra de Berry talvez tenham sido sua maior contribuição ao rock e ela pode ser ouvida claramente nos trabalhos dos Beatles – que gravaram as músicas do mestre “Rock and Roll Music” e “Roll Over Beethoven” e outras tantas em suas carreiras solos – ou dos Rolling Stones e uma infinidade de bandas. Creio que deve ser raro um iniciante na guitarra que não tenha tentado tirar a introdução de “Johnny B. Goode”, uma música de 1958, mas que não perdeu sua força até hoje e já foi regravada incontáveis vezes. Além de sua guitarra, Berry também foi um grande letrista e soube capturar a atenção da juventude dos anos 50 com letras cheias de humor, ironia e duplos sentidos com conotação sexual, em um momento em que esses jovens buscavam seu espaço e a libertação do conservadorismo. Além disso, o próprio Chuck Berry teve uma vida atribulada, com várias passagens em prisões desde novo, e até uma rebeldia contra o establishment, ao tentar gerenciar sua carreira de forma independente para não ser passado para trás em cachês de shows e contratos.
Por tudo isso pode-se dizer sem medo que Chuck Berry lançou as bases do que seria o rock nos anos seguintes, não só em termos de música e sonoridade, mas também de comportamento. Se o rock representou a voz de toda uma geração, Chuck Berry foi, sem dúvida, um de seus principais amplificadores. Por hora, nada de chorar a perda desse músico e sim ouvir sua música, que ainda vai tocar por muito tempo.
(Publicado no Jornal das Lajes, abril/2017)

domingo, 19 de março de 2017

Elis, inigualável

É muito legal ver a obra e memória de Elis Regina, que faria 72 anos nesse mês, voltar com tudo, com direito a filme e nova biografia, ambos lançados em um intervalo de menos de dois anos. Sobre o filme, eu não vou falar para não ser redundante e deixo com vocês a resenha do amigo historiador e pesquisador de música popular Luiz Henrique Garcia (leia AQUI). Já a biografia “Elis Regina – nada será como antes”, escrita pelo jornalista Julio Maria, eu terminei de ler por esses dias e recomendo a leitura.
A primeira coisa a se elogiar é a coragem na escolha do tema. Afinal, Elis Regina não era simplesmente uma grande cantora. Ainda em vida foi louvada como uma das maiores cantoras do país, senão a maior. Ao se encantar tão jovem, com apenas 36 anos, entrou para o panteão das lendas. Elis deixou na música brasileira um vácuo, um posto vazio da grande cantora que era praticamente unanimidade e certeza de grandes interpretações. Logo, não é tarefa fácil para qualquer autor escolher um personagem tão conhecido, já que o trabalho com certeza será escrutinado nos detalhes. Porém, Julio Maria fez seu dever de casa com uma pesquisa muito bem feita e complementada por entrevistas com os personagens mais importantes, fato que deixa a narrativa bem mais interessante e recheada de histórias curiosas.
Outro mérito do trabalho vem da complexidade da própria personagem de Elis. Uma cantora brilhante, que com pouca idade já se destacava como vencedora de festivais e apresentadora de um popular programa de TV, mas também uma pessoa cheia de inseguranças e com um espírito extremamente competitivo, que levou a artista a polêmicas nada honrosas, envolvendo principalmente outras cantoras. Assim, seria muito fácil um autor resvalar para um dos dois extremos, o da hagiografia – a biografia da vida de santos – ou, em bom português, a tradicional “rasgação de seda” ou para o folhetim de fofocas. Julio Maria conseguiu se equilibrar muito bem e contar a história que precisava ser contada. Naturalmente, ele se debruça em alguns aspectos complexos de Elis, como a relação conturbada com a família ou os problemas enfrentados em seus casamentos com Ronaldo Bôscoli e César Camargo Mariano (e os seus affairs extraconjugais) e tenta analisar com alguma profundidade além da mera narração de eventos. Porém, Júlio o faz com elegância, sem pieguices ou análises rasas e lineares.
Por fim, Julio Maria não poupou em seu livro a descrição do gênio complicado e explosivo de Elis. Suas rusgas com outras cantoras e histórias nada dignificantes como as querelas com Nara Leão ou Alaíde Costa estão lá. Bem como o assunto espinhoso do uso de cocaína, que cobrou de Elis o preço máximo. Ou a difícil patroa que pagava os melhores cachês aos seus músicos, mas que cobrava uma lealdade canina, além do desempenho irretocável, à altura da sua voz. Mas o livro também retrata Elis como a mãe dedicada e a pessoa que peitou a polícia em dias de ditadura para ajudar Rita Lee, com quem quase não tinha relação, a sair da cadeia por porte de drogas e a se reerguer financeiramente, gravando músicas dela.
Acima de tudo, o livro pinta em cores vivas a artista brilhante que foi Elis, dona de uma voz sem igual e respeitada por instrumentistas por entender seu trabalho muito além do que se esperaria de uma cantora. E cuja dedicação à música e perfeccionismo a transformou em uma exímia garimpeira de ouro escondido no trabalho de artistas ainda desconhecidos e por ela promovidos, em uma lista que vai de Milton Nascimento a Renato Teixeira, passando por João Bosco e Ivan Lins. E é justamente a música o ponto alto do livro, como não podia deixar de ser. O autor conta com detalhes a produção e gravações de vários álbuns de Elis e de seus espetáculos que marcaram época, como “Falso Brilhante”. Enfim, um trabalho completo e que honra a memória da inigualável Elis e, principalmente, sua obra. Será que ainda veremos outra cantora tão incrível assim?
(Publicado no Jornal das Lajes, em março/2017)

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

A história contada por quem foi história

Os novos tempos de Youtube e Netflix têm sido particularmente divertidos para um apaixonado por música como eu. Essas plataformas deixaram ao alcance de muita gente um número incrível de filmes e documentários que contam histórias de bandas, artistas e até movimentos musicais. Eu me interesso muito por documentários, pois é a chance de ouvir as histórias e opiniões diretamente da boca de quem foi personagem principal. Mesmo quando você conhece razoavelmente do assunto, sempre tem uma história de bastidor ou um caso divertido que traz um tempero interessante. A variedade de títulos cobre estilos diversos, como o punk ou disco music, artistas como Sinatra ou Janis Joplin e até histórias focadas na gravação de um álbum específico. Recentemente cruzei por dois documentários muito interessantes por trazerem fatos desconhecidos e me fazerem rever opiniões.

O primeiro foi “The Wrecking Crew”, que conta a história de um grupo de músicos de estúdio que se notabilizou no final dos anos 50. Não era um grupo fechado, mas contava com algumas figuras que se cruzavam no estúdio com frequência como os guitarristas Tommy Tedesco e Glen Campbell, a baixista Carol Kaye, o baterista Hal Blaine e o tecladista Leon Russel. Fora Leon Russel e Glen Campbell, que tiveram sucesso em carreira solo, provavelmente você não ouviu falar deles. Porém, não vai imaginar a quantidade de músicas em que eles tocaram. Só o baterista Hal Blaine participou da gravação de cerca de 40 músicas que atingiram o primeiro lugar nas paradas. Além disso, foram a base instrumental para artistas como Sonny & Cher, The Mamas & The Papas e até Frank Sinatra. Ou foram os “músicos fantasmas” em álbuns creditados a outros artistas como The Monkees ou The Byrds. Quando Brian Wilson quis romper com a música fácil e produzir um álbum de qualidade para os Beach Boys não teve dúvida. Recrutou os músicos do Wrecking Crew para as bases da sua obra prima “Pet Sounds”, na qual os próprios Beach Boys empregaram somente suas belas vozes. Domínio do instrumento, facilidade para ler partituras e se adaptar a diversos estilos foram os motivos para aqueles músicos serem sempre lembrados para gravar, mesmo sem muito ensaio. O documentário faz pensar sobre as razões do sucesso desse ou daquele artista e sobre a autenticidade da música, além de contar histórias divertidas por trás de hits conhecidos.

O segundo documentário me fez rever conceitos. Quando se fala de rock brasileiro, sempre vinha à minha cabeça os anos 80 com Legião Urbana, Barão Vermelho e companhia. O recém-lançado “Sem Dentes: Banguela Records e a Turma de 94” me mostrou (ou relembrou talvez) a qualidade do rock produzido nos anos 90, que trouxe à cena Chico Science, Raimundos, Mundo Livre S/A, Skank, Pato Fu e outros. A grande inspiração dessa geração foi o Sepultura, que alcançou sucesso mundial com um trabalho totalmente independente. O lendário jornalista, e depois produtor, Carlos Eduardo Miranda garimpou incansavelmente artistas oriundos de cenas locais de Recife, Brasília e Belo Horizonte e convenceu os Titãs a lançarem, em parceria com a Warner Music, um selo, o Banguela Records, para promover novos talentos. O documentário é bastante rico em entrevistas e material como as versões de divulgação (as famosas fitas demo) de músicas que ficariam famosas nos anos seguintes. Também conta a história de bandas promissoras, mas que, por motivos diversos, apenas “bateram na trave” e hoje fazem parte de uma espécie de “memorial cult” por suas qualidades. A história dá uma pista sobre a difusão de selos independentes nos anos seguintes e também a ponte com o som que viria depois, como Charlie Brown ou Los Hermanos. Definitivamente, vou voltar em alguns discos daquela época e ampliar meus horizontes. Antes tarde do que nunca.

Essa é só uma amostra de coisas interessantes rolando nas telas. Esses documentários são uma chance valiosa de se conhecer novos nomes ou se divertir com casos curiosos contados por seus artistas favoritos. Vale gastar um tempo pesquisando.

(Publicado no Jornal das Lajes, Janeiro de 2017)