As formas de comprar e escutar música vêm passando, desde os anos 80, por uma revolução que ainda está em andamento e cujos resultados são difíceis de prever. A mudança começou no início da década de 80 com a introdução do Compact Disc, o CD. Quando transformaram a onda sonora em zeros e uns do mundo digital, nem o mais visionário dos executivos de gravadoras podia prever que, para suas finanças, foi aberta a porta do inferno. O CD levou à extinção a fita cassete e quase acabou com o disco de vinil, que vem renascendo desde 2007, ainda que marginalmente. E levou a indústria fonográfica a um recorde histórico de faturamento em 1999, estimado em mais de 28 bilhões de dólares mundialmente. Porém, toda euforia traz o perigo da sensação de invencibilidade. E naquele ano já estavam em marcha mudanças que fariam as vendas de música caírem para menos da metade na década seguinte.

O ótimo livro “Como a música ficou grátis” de Stephen Witt conta o começo do pesadelo da indústria de uma forma interessante. O autor mostra, em narrativas isoladas, mas que se encontram todo o tempo, o desenvolvimento do formato de compressão mp3, o avanço da pirataria digital e a luta da indústria pela sobrevivência. A história do mp3 é particularmente interessante. Para um leigo em acústica como eu o livro conseguiu explicar de uma forma bastante didática como funciona a compressão de música sem perda perceptível de qualidade (ao menos para um ouvido limitado como o meu). E descreve a batalha de vários anos da pesquisa levada a cabo, no instituto alemão Fraunhofer, por físicos, matemáticos, programadores e especialistas em psicoacústica, a ciência que estuda como ouvimos os sons. Hoje, ao se ver o domínio do mp3, é difícil imaginar que o formato quase morreu antes de nascer e a luta que foi para se estabelecer comercialmente.

A segunda narrativa é sobre o avanço e sofisticação da pirataria. Em um primeiro momento, vendas de CD foram afetadas pelo barateamento de gravadores caseiros de CD. A maior ameaça, porém, viria com o advento do mp3 e da popularização da internet. Centrado na história pessoal de um funcionário de uma fábrica da PolyGram, o autor conta o caminho do vazamento de álbuns inéditos, desde o roubo do disco antes de ser empacotado, até chegar em sites secretos de gangues de piratas eletrônicos que disputavam quem conseguia vazar mais novidades. É um relato curioso, ainda que toque apenas superficialmente uma internet subterrânea que é difícil imaginar que exista. Por fim, a terceira narrativa é justamente a luta das gravadoras contra a pirataria e essas redes de distribuição. No primeiro momento, a indústria não passou nem perto de prever o estrago que o mp3 faria. Em parte, pela arrogância dos executivos e produtores que menosprezaram a perda de qualidade do formato, mas que se esqueceram que o ouvinte padrão escutava música pelo rádio ou em uma fita mal gravada em seu aparelho de som compacto, sem preocupação com qualidade. Quando o rombo no casco do navio já era notado nos balanços, partiram atrás dos piratas – grandes e pequenos – em uma série de investigações e processos intermináveis.

Ao fim, o livro é uma narrativa bem costurada de uma história que está longe de acabar e que ganhou novos atores com o comércio da música digital, seja pela venda de faixas ou discos, como no iTunes, ou a nova febre do streaming através de plataformas como Deezer e Spotify. Os novos formatos não vão trazer de volta os dias de glória para as gravadoras, mas conseguiram brecar a queda no faturamento e as vendas seguem mais ou menos estáveis desde 2010, com o formato de streaming avançando ano a ano. Enquanto isso, Neil Young segue sua cruzada quase quixotesca contra a má qualidade do áudio do mp3, tentando lançar comercialmente o seu formato sem perda de qualidade. O declínio no download de música e álbuns, porém, faz pensar se essa batalha faz parte do passado. A boa notícia é que ele liberou novamente sua discografia para streaming. A se ver os próximos capítulos.

(Publicado no Jornal das Lajes, dezembro de 2016)