sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Lançamentos: o clássico e o novo

Segue o ano e bons lançamentos continuam. Desta vez escolhi para falar de um clássico consagrado e de um músico da nova geração. Clássicos devem ser reverenciados sempre, pois são a base e a história da música. Normalmente coisas novas são construídas a partir deles e mesmo nas grandes rupturas sempre se encontram elementos dos grandes, ainda que esses elementos sejam propositadamente descontruídos em favor de uma nova estética. E o novo tem que ser buscado sempre, para que não nos tornemos saudosistas chatos para quem só vale ouvir os grandes do passado.
O clássico é um dos nossos sambistas mais importantes, Angenor de Oliveira, o Cartola. Um dos fundadores da prestigiada escola de samba Mangueira, Cartola teve uma vida dura e só desfrutou de sucesso comercial no fim da vida. Envolvido com a música desde muito cedo, Cartola sobreviveu por muitos anos com bicos de pedreiro, lavador de carros ou vigia, ao mesmo tempo que via suas composições serem gravadas por artistas de sucesso como Francisco Alves, Silvio Caldas e Carmem Miranda ou seus sambas-enredo desfilarem com a Mangueira. Sempre compondo, tocando e participando de gravações de outros artistas, Cartola só lançaria seu primeiro disco aos 66 anos em 1974 e repetiria a dose em 1976. Os álbuns foram lançados pelo selo Discos Marcus Pereira e agora são reeditados em uma caixa que ainda tem a compilação “Tempos Idos”, com composições de Cartola registradas entre 1967 e 1976 de forma avulsa pelo próprio ou outros artistas. É de se espantar que a oportunidade de gravar o disco próprio tenha demorado tanto, mas Marcus Pereira – cuja história e contribuição à música regional brasileira merece um artigo separado – reparou a injustiça. E agora nós podemos desfrutar a gravação original de sambas de alto nível como “O sol nascerá”, “Alvorada” e as lindíssimas “As rosas não falam” e “O mundo é um moinho”. Para quem gosta de samba, é um material riquíssimo e para se ouvir sem restrições.
O novo é Raul Mariano, artista da nova safra de músicos de Minas Gerais. Como sempre digo nesta coluna, não espere ouvir coisas novas nos meios tradicionais como rádio ou TV. Para colocar seu disco independente no mundo Raul Mariano seguiu um caminho que tem sido o típico: financiamento coletivo e divulgação através de redes sociais. Ao assinar todas as faixas do seu primeiro disco (algumas em parceria), Raul mostra competência em todas as frentes: letra, música, arranjos e uma bela voz. “Pra Quem Está Vivo” é um álbum que faz uma ponte muito interessante entre o rock e a MPB. Aliás, uma ponte até esperada visto que a música de Raul tem clara influência do Clube da Esquina, que inaugurou essa ligação rock-MPB em um passado não distante. Canções como “Reinvento” e “Tratado intercontinental da coragem” mostram essa influência do Clube. Essas, junto com “Outro norte” e “O homem” dão o toque MPB, enquanto “Claridão” e “Tipos humanos” trazem o clima rock com influências de Paul McCartney e Rita Lee respectivamente. Raul Mariano colocou na praça um disco muito bem arranjado e produzido, que prima pela coerência entre as faixas, letras relevantes, clima leve e, acredito, potencial para tocar em algumas rádios que ainda acreditam em música brasileira por honrar a tradição da MPB de fazer belas canções. E de quebra ainda tem um bonito trabalho artístico na capa e encarte. Pode apreciar sem medo de ser feliz.
Enfim, dois ótimos lançamentos que valem ser escutados e ambos estão disponíveis em formato físico, streaming ou mesmo redes sociais (confere lá em https://soundcloud.com/praquemestavivo). Duas histórias distintas e distantes no tempo, mas com o traço comum da resistência e persistência: os discos da redenção de um artista consagrado, mas que ainda não havia feito um registro solo, e de um jovem artista lutando de forma totalmente independente para lançar e divulgar o trabalho. Música também é batalha.
(Publicado no Jornal das Lajes, novembro de 2016)

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