quarta-feira, 25 de maio de 2016

Mulheres no rock

No fim de março, o mês das mulheres, me peguei escutando várias artistas que fizeram trabalhos relevantes no rock e andei matutando sobre o pioneirismo e o papel que elas tiveram nesse estilo, que pode até ser rotulado de machista. Quando se pensa nos grandes ícones do rock, rapidamente vem à cabeça nomes como Beatles, Led Zeppelin ou Pink Floyd. Nenhuma mulher no line-up dessas bandas e tantas outras que escreveram a história do estilo. Entretanto, algumas mulheres foram protagonistas e produziram trabalhos de qualidade e, creio eu, mereceriam maior reconhecimento.

Não é difícil entender a dificuldade que as mulheres tiveram em um passado não muito distante. Se nos conservadores anos 50 e 60 os pais ficavam horrorizados ao ver seus filhos homens deixando os cabelos crescerem e se agitando ao som do rock, imagine qual não seria a reação de um pai ao ouvir sua filha pedir uma guitarra. Ainda assim algumas mulheres venceram o preconceito da sociedade e, talvez, até do mercado: público e gravadoras. Entre cantoras e compositoras podemos fazer uma lista enorme com nomes como Grace Slick (Jefferson Airplane), a pioneira Suzi Quatro, Deborah Harry (Blondie), Patti Smith e, em tempos recentes, Alanis Morissette ou Amy Winehouse. Porém, por hoje vou falar de um quarteto mais que fantástico: Janis Joplin, Joan Jett, Bonnie Rait e Rita Lee.

Janis Joplin deixou o conservador Texas com apenas 20 anos para se estabelecer em San Francisco, o epicentro do rock psicodélico no fim dos anos 60. Cantora e compositora com o pé fincado no blues, ela se tornou conhecida cantando com a Big Brother and the Holding Company. Sua estrela, porém, brilharia bem forte e após dois álbuns partiria para cantar sozinha. Dona de uma voz crua e emocionante, Janis sucumbiu aos abusos de álcool e drogas e se foi com apenas 27 anos. Deixou somente quatro álbuns de estúdios e alguns ao vivo. Recomendo o álbum Pearl, que estava em gravação quando Janis partiu e foi lançado postumamente.

À mesma época, Rita Lee ganhava notoriedade no Brasil. Cantora de Os Mutantes, junto com os irmãos Dias Baptista, Arnaldo e Sérgio, foi pioneira ao levar o rock brasileiro para a idade adulta, em contraste com o rock inocente que existia por aqui. Descontente com a guinada para o rock progressivo dos Mutantes, Rita Lee partiu para a carreira solo e surpreendeu ao sobreviver, e bem, sozinha. Com uma carreira sólida até os dias de hoje, Rita Lee é a quarta artista com mais discos vendidos no Brasil, com a incrível marca de 55 milhões de álbuns. Fora os ótimos álbuns dos Mutantes, o disco “Fruto Proibido” é audição obrigatória.

Filha do blues, Bonnie Rait lançou seu primeiro álbum em 1971 e o sucesso comercial veio alguns anos depois. E foi uma das primeiras mulheres a serem aclamadas como instrumentista, com sua guitarra que segue as melhores tradições do blues do Mississipi. Bonnie Rait tem uma voz suave e cristalina, mas mesmo assim se sai muito bem em um estilo que normalmente é território de vozes potentes. Os seus dois primeiros discos, Bonnie Rait e Give It Up, apesar de não terem tido grande sucesso comercial, foram bem cotados pela crítica e valem a audição para quem gosta de um blues executado com o tradicional slide.

Joan Jett vem de uma onda bem diferente das outras três. Seu rock é cru e visceral, com o peso, energia e simplicidade do Punk. Joan se revelou e teve certo sucesso com a sua banda The Runaways, composta só de mulheres, formação pouco usual mesmo em 1975. Após o fim da banda em 79, Joan começaria uma carreira solo de sucesso com sua banda de apoio, The Blackhearts. Da sua ótima discografia recomendo os álbuns Bad Reputation e I Love Rock and Roll, seu grande sucesso comercial. Vale também conferir o filme The Runaways, que conta a história da banda.

Quatro roqueiras que provaram que o estilo não é um clube masculino e que sempre entregaram rebeldia, energia e música de qualidade como o estilo pede.

(Publicado no Jornal das Lajes, abril/2015)

sábado, 14 de maio de 2016

O quinto Beatle

As crônicas sobre os Beatles sempre lembram as histórias daqueles que foram Beatles, mas que não fizeram parte da glória do grupo. Como Stuart “Stu” Sutcliffe, o baixista sem talento que logo abandonou o grupo quando ainda estavam em Hamburgo, Alemanha, antes da fama. Ou Pete Best, o baterista que acompanhou John, Paul e George na busca do primeiro contrato. Quando a Parlophone, subsidiária da EMI, se interessou pelo grupo, logo notaram que o baterista não era do mesmo nível dos demais e exigiu sua substituição por um melhor, impasse que os Beatles resolveram com a dispensa de Pete Best e o convite para Ringo Starr se juntar ao time.

A história do produtor dos Beatles, George Martin, que se encantou no último mês de março, é exatamente o oposto. Ele não era um Beatle, mas fez parte de toda história e glória do grupo. Tamanha foi sua contribuição para o som da banda que sempre foi lembrado como o quinto Beatle. George Martin se interessou por música ainda criança e na juventude estudou piano e oboé. Após se formar começou a trabalhar na Parlophone, braço da EMI. O selo andava desprestigiado quando Martin ajudou a reerguê-lo e assumiu sua direção. Martin buscava diversificar o catálogo e entrar na onda do rock, quando resolveu dar uma chance aos Beatles, que haviam sido recusados pela gravadora Decca. No primeiro instante Martin não se impressionou com os Beatles, musicalmente falando. Achou-os bons, mas se encantou principalmente com o carisma, humor apurado e energia do grupo. A primeira chance no mercado veio com o compacto “Love me Do”, que chegou ao 17º lugar nas paradas britânicas. Nada mau, mas ainda longe de ser um grande sucesso.

Martin garimpou músicas com chances de sucesso e ofereceu para os Beatles “How do you do it”. Eles gravaram, mas insistiram que queriam lançar uma música de autoria própria e mostraram ao produtor “Please please me”. Ao fim da gravação Martin profetizou: “vocês acabaram de gravar o seu primeiro ‘número um’ nas paradas”. E Martin provou-se duplamente certo. “Please please me” chegou ao primeiro lugar, assim como “How do you do it”, essa, porém, interpretada pelo grupo Gerry and The Pacemakers, que tinha o mesmo empresário dos Beatles, Brian Epstein. Começou aí um relacionamento com os quatro rapazes que duraria por toda a vida de Martin. Como Lennon disse em uma entrevista, foi também um aprendizado mútuo por conta da inexperiência dos Beatles com estúdios e de Martin com o rock’n’roll em si. À medida que os Beatles evoluem na qualidade de suas composições, George se mostra fundamental em ajudar a materializar no estúdio as ideias do quarteto e a história que melhor ilustra suas contribuições é a do clássico “Yesterday”.

Após Paul apresentar a música, Martin logo propôs gravá-la somente com o violão e um quarteto de cordas. Paul se opôs, dizendo que eles eram uma banda de rock e que não ficaria bom, mas deu um voto de confiança para Martin tentar. Como um professor, Martin mostrou a Paul como fazer um arranjo a partir dos acordes da música e esse se empolgou com o resultado final, gravando uma música que entraria para história e que seria depois imitada por vários outros grupos. Daí em diante o trabalho dos Beatles se sofistica cada vez mais até chegar no álbum lendário “Sergeant Pepper’s”, onde Martin foi mais uma vez posto à prova e contribuiu com arranjos primorosos e experimentais.

Por tudo isso, George Martin foi uma peça essencial da revolução musical liderada pelos Beatles, assinando, inclusive, toda a trilha instrumental do desenho “Yellow Submarine”. E continuou contribuindo com o legado do quarteto, em pleno século XXI, ao assinar a trilha sonora para o espetáculo “Love”, do Cirque du Soleil, um fantástico remix de clássicos dos Beatles que embala o show. Após seu “encantamento” em março, Paul McCartney escreveu com propriedade: “se alguém mereceu o título de quinto Beatle, esse foi George Martin.” Vá em paz, George. E se prepare para trabalhar, pois John Lennon e George Harrison devem ter muitas composições prontas esperando por um bom produtor.

(Publicado no Jornal das Lajes, maio de 2016)