domingo, 17 de abril de 2016

Mais um bom lançamento: AR

Comentei recentemente que a virada do ano trouxe bons lançamentos. No fim de 2015 a dupla Almir Sater e Renato Teixeira colocou nas prateleiras o ótimo “AR”, selando em um álbum uma parceria de muitos anos. A dupla pode ser considerada uma das últimas linhas de defesa da chamada música caipira e que resistiu às diversas transformações (ou deformações?) pelas quais o estilo passou desde os anos 90. Em comum os dois artistas carregam uma característica importante: foram responsáveis, em momentos diferentes, por lembrar ao Brasil que existe uma música bonita e profunda que vem do interior e canta as belezas da terra, a luta diária do sertanejo e a integração desse com a natureza.

Renato Teixeira foi revelado nos anos 70, com o apoio de Elis Regina e sua antológica interpretação de “Romaria”, integrando a temática caipira à chamada MPB. Almir Sater, por sua vez, apareceu em festivais nos anos 80, mas teve sua música levada ao grande público através das suas atuações em novelas. Violeiro virtuoso, levou seu instrumento para a telinha e é creditado como um dos responsáveis pelo renascimento da viola caipira, ao despertar o interesse em vários jovens, que foram atrás de professores para aprender, como relata o violeiro Ivan Vilela no ótimo livro “Cantando a Própria História: Música Caipira e Enraizamento”.

A dupla se conhece de longa data e a parceria já rendeu clássicos como “Tocando em frente”. Porém, ainda não haviam lançado um disco juntos. E “AR” foi gestado lentamente, com composições acumuladas ao longo de 6 anos, até que resolveram dar forma final ao trabalho. Curiosamente, quem “costurou” o disco foi o respeitado produtor norte-americano Eric Silver, como os artistas revelaram em entrevista ao crítico Júlio Maria, do Estadão. Eric Silver é um nome reconhecido no meio Country nos Estados Unidos e por conta disso trouxe para esse trabalho uma sonoridade interessante, fazendo uma bem-vinda fusão daquele estilo com o som de Almir e Renato. E falando em fusão, talvez seja essa a palavra que melhor define o clima de “AR”. Renato e Almir fizeram um disco que passeia pelo caipira, pelo folk e vai até outras bandas mais distantes.

As temáticas da roça estão presentes em músicas como “Espelho d’água”, “Peixe frito” e “Noite dos sinos”. Esta última, aliás, ilustra bem o que eu falo de fusão. É uma música cujo tema é a Folia de Reis, uma das grandes manifestações caipiras, mas cuja sonoridade poderia ter saído muito bem de um disco de Crosby, Still, Nash & Young. A faixa “Bicho feio”, por sua vez, fala de lendas do nosso folclore, como o Saci e o Curupira, sobre uma base que remete à música celta, também conhecida por falar de criaturas fantásticas. Ainda sobre estilos, a faixa que abre o disco, “D de destino” tem um pé no folk – cujo nome diz respeito às suas origens folclóricas – e que faz lembrar o som que no Brasil ficou conhecido nos anos 70 como “rock rural”, que teve como expoente o trio Sá, Rodrix & Guarabira.

Falando de letras, essas merecem elogios à parte. A tônica do disco são canções bem intimistas e confessionais. Daquelas que dão a sensação de que os artistas estão abrindo o coração, como nas faixas “A primeira vez”, “A flor que a gente assopra” ou “Amor leva eu”. Seria uma influência de Renato Teixeira nas letras? Talvez, se lembrarmos outras do artista, como “Amora” ou seu clássico “Romaria”. De fato, é um disco que valoriza a canção e suas belas letras, de modo que Almir Sater, um violeiro genial, botou sua viola a serviço das bases e abriu mão de desfilar suas habilidades em solos.

“AR” pode até não ser considerado um disco inovador, mas a criatividade dos artistas andou em alta. Seja na mistura de estilos, seja na qualidade das letras, Renato e Almir fizeram um registro de primeiríssima. O toque do produtor Eric Silver trouxe um tempero extra que fez diferença no resultado, mostrando que em música sempre é saudável abandonar purismos e buscar influências em outras águas. Audição mais do que recomendada, para lembrar que a música brasileira ainda anda muito bem.

(Publicado no Jornal das Lajes, Abril/2016)

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Música boa: Coletivo CasAzul



E tem quem insiste no bordão batido de que a música brasileira está decadente. Sempre repito: não está. Está forte e pulsante. Essa música, porém, não está na telinha ou em 99% das rádios. Está espalhada por aí, no bar, nos pequenos shows ou na internet (agora se fala nuvem, né?).

O Coletivo CasAzul é de BH, terra de onde tem saído muita coisa boa. Artistas originais que vêm provando a cada dia que a música de Minas já dobrou a esquina e voou longe. Já falei de alguns por aqui, como o Luiz Gabriel Lopes (veja o texto aqui) ou da Irene Bertachini, integrante do ANA, sobre o qual também escrevi (texto aqui).

Vários trabalhos estão disponíveis no site do CasAzul (link para download ou para ouvir no Soundcloud) e vale a pena demais. Estou ouvindo dois e estou adorando: “Ilumiara”, do grupo homônimo, e “Tião Experiença”, do trio “Tião Duá”, outro projeto do Luiz Gabriel Lopes, junto com Gustavito Amaral e Juninho Ibituruna.

“Ilumiara” reúne músicas vindas de um interior do qual pouco se fala nos dias de hoje. São músicas de domínio público ou coletadas junto a cantadores, além de cânticos de trabalhadores como lavadeiras e garimpeiros. O disco é marcado por vocais lindíssimos e instrumental sofisticado, costurados em arranjos excelentes. O disco conta inclusive com arranjos de dois grandes nomes, Rafael Martini e Kristoff Silva (um dos autores de “A outra cidade”, texto aqui).

O clima do Tião Duá é outro. Mais balanço. Música leve, mas longe de ser rasa. Clima alegre, daqueles discos bons para se ouvir quando se está meio desanimado ou para baixo. Presta atenção nas letras e no swing. Recomendadíssimo.

Ainda tem mais coisa boa para se ouvir lá, como o excelente “Irene Preta, Irene Boa” da Irene Bertachini. Já vi que eu mesmo ainda vou gastar uns bons dias passeando pelo site.

Pode ir sem medo de arrepender: http://www.coletivocasazul.com/