domingo, 9 de março de 2014

Acumuladores digitais

Os tempos digitais trouxeram coisas boas. Muitos vão se lembrar do quanto era demorado e custoso tirar e revelar fotos. Fora a raiva que passávamos quando batíamos uma foto sem querer ou quando ela ficava ruim, afinal só víamos o resultado dias depois. E filmar também era caro e trabalhoso dado o tamanho das filmadoras VHS, que foram substituídas depois pelas de 8mm. Menores, mais ainda bem maiores que as atuais e celulares. O advento das máquinas digitais e celulares que fotografam e filmam democratizaram o acesso a uma das melhores e mais divertidas formas de se guardar a memória, a fotografia - e a filmagem, para quem gosta. Pra quem curte música nem precisa falar da praticidade do MP3 em relação ao CD ou LP.

A facilidade traz um lado ruim: corremos o risco de nos tornar acumuladores. Digitais no caso. Tiramos mais fotos e filmamos mais, afinal, não custa nada, certo? Juntamos mais música, pois não ocupa espaço na gaveta ou estante. Então pergunto: qual é o valor de se juntar fotos que não vamos ver ou músicas que não vamos ouvir? Rever uma bela foto não tem preço, mas, ainda assim, muitas vezes antes de sacar a máquina e preparar pra bater a foto, penso se não é melhor simplesmente aproveitar o momento e curtir a vista. E olha que sou apaixonado por fotografia. É uma escolha entre a memória de um momento e uma foto que nem sempre transmite aquela emoção e que pode até ficar ruim (tremida, luz ou foco inadequados e outras coisas que nem sempre acertamos). Algumas vezes me arrependo por não ter tirado a foto, mas tudo bem. Foi uma aposta perdida.

A opção acima é pessoal e não quero impor como certa. Quero é protestar sobre quando a opção por acumular atrapalha os outros. Fico pasmo de ver em shows hoje em dia a quantidade de pessoas com os celulares levantados para filmar o show. Provavelmente para postar no Facebook ou Youtube e nunca mais ver. Até porque provavelmente vai ficar muito ruim e com som quase inaudível. E essa inutilidade toda às custas da visão de alguém que será atrapalhado, às vezes por um longo período de tempo.

Outro dia em um museu vi outra forma de acumulação digital. Fiquei impressionado com a quantidade de pessoas tirando fotos dos quadros ao invés de admirá-los. Fotos sem tripés e que provavelmente sairão tremidas e mal enquadradas, fora a chance de ter a foto avacalhada pelo trânsito de gente dentro do museu, que estava bem cheio naquele dia. E ainda te olham com cara ruim se você quer simplesmente parar próximo ao quadro e explorar seus detalhes, atrapalhando a foto. O porém é que na loja do museu haviam livros com fotos do acervo - fotos profissionais e com comentários sobre os quadros e autores. E o museu também tinha um aplicativo onde se pode ver boa parte do acervo no celular ou tablet. E ainda há o bom e gratuito Google Images onde conseguimos imagens de alta resolução dos quadros mais famosos gratuitamente. Então pra quer perder tempo fazendo uma foto que provavelmente será ruim e irá atrapalhar alguém? E que talvez você só veja uma vez e nunca mais?


E pra terminar, um alerta sobre algo que poucos se preocupam quando se fala de acumulação digital (de coisa boa ou não). Você se preocupa em fazer cópia - ou cópias, no plural - de segurança? Discos rígidos pifam ou se queimam com raios e computadores são roubados. E o que você faz para garantir que não vai perder as fotos do seu filho quando bebê ou das férias inesquecíveis?

P.S.: procurando uma imagem para esse post topei com esse texto divertido no site do The Guardian sobre boas razões para se filmar um show. Confira AQUI.