domingo, 21 de dezembro de 2014

Versões e desconstruções



A música pop tem sido acometida por diversos males nos últimos tempos, mas tem um que tem me incomodado bastante: a quantidade de versões de músicas consagradas rolando por aí. Liga-se a rádio ou TV e o que mais ouve (fora o ritmo do momento) são versões e regravações de músicas conhecidas. A primeira sensação que se tem é que não se produz mais coisas novas de qualidade, o que não é verdade. Em seguida, presta-se atenção na versão e, na imensa maioria das vezes, constata-se que na verdade está se ouvindo a mesma coisa, até com arranjos parecidos. Outras vezes sai-se com a impressão de que é uma releitura mas que nada acrescenta ou, muitas vezes, em nada se conecta com o espírito e letras originais.

Gostaria em primeiro lugar entender a lógica - ou falta de - da indústria fonográfica que fica requentando pratos que nada acrescentam. Depois queria saber qual é o sentido de se propor uma releitura que na melhor das hipóteses é mais do mesmo ou, caso pior, estragam um clássico. Não sou contra versões, muito pelo contrário. Há versões que algumas vezes superam a original e trazem vida nova.


Ouça por exemplo o clássico "All Along the Watchtower" no original do Bob Dylan e depois a versão magistral de Jimi Hendrix. Conto nos dedos quantas vezes eu ouço por aí a original. Dylan que me desculpe, mas a sensação é que Hendrix conseguiu dar a forma final ao trabalho.

A música original de Dylan

A versão definitiva de Jimi Hendrix

Se pensarmos em versões onde se muda a língua, o desafio de se fazer algo relevante é maior ainda, mas possível. Haja visto as interessantes releituras em português que a Rita Lee fez dos Beatles no seu ótimo disco “Aqui, Ali, em Qualquer Lugar”, um tributo de fã apaixonada. Também digna de nota é "Astronauta de Mármore", releitura de "Starman" de David Bowie feita pelo Nenhum de Nós. É uma tradução bem livre, sem muitos vínculos com a original, mas da qual saiu uma boa letra. A versão foi elogiada pelo próprio Bowie, que inclusive cantou um trecho em uma apresentação Brasil. Ainda sobre boas versões, faço uma pergunta: quem conhece a versão original de "Twist and Shout"? Não, ela não é dos Beatles. Quais outras boas releituras podem ser acrescentadas à lista?

Starman, no original de David Bowie

Por fim, uma nota sobre a nova moda de músicas de fundo e as pavorosas versões em ritmo de bossa nova ou cool jazz de clássicos do rock. Há quem chame o estilo de "lounge", mas pra mim é música de péssimo gosto. Pegam uma música porrada como "Brown Sugar" - que resume a essência da trindade sexo-drogas-rock'n'roll - e colocam uma mulher com voz de menina cantando em ritmo de bossa. Outro dia ouvi uma versão dessas para "Smells Likes Teen Spirit" e imaginei Kurt Cobain se revirando no túmulo com a descontrução de sua música emblemática. Faz me lembrar da frase proferida certa vez no senado romano: “até quando vai abusar da nossa paciência”?

domingo, 9 de março de 2014

Acumuladores digitais

Os tempos digitais trouxeram coisas boas. Muitos vão se lembrar do quanto era demorado e custoso tirar e revelar fotos. Fora a raiva que passávamos quando batíamos uma foto sem querer ou quando ela ficava ruim, afinal só víamos o resultado dias depois. E filmar também era caro e trabalhoso dado o tamanho das filmadoras VHS, que foram substituídas depois pelas de 8mm. Menores, mais ainda bem maiores que as atuais e celulares. O advento das máquinas digitais e celulares que fotografam e filmam democratizaram o acesso a uma das melhores e mais divertidas formas de se guardar a memória, a fotografia - e a filmagem, para quem gosta. Pra quem curte música nem precisa falar da praticidade do MP3 em relação ao CD ou LP.

A facilidade traz um lado ruim: corremos o risco de nos tornar acumuladores. Digitais no caso. Tiramos mais fotos e filmamos mais, afinal, não custa nada, certo? Juntamos mais música, pois não ocupa espaço na gaveta ou estante. Então pergunto: qual é o valor de se juntar fotos que não vamos ver ou músicas que não vamos ouvir? Rever uma bela foto não tem preço, mas, ainda assim, muitas vezes antes de sacar a máquina e preparar pra bater a foto, penso se não é melhor simplesmente aproveitar o momento e curtir a vista. E olha que sou apaixonado por fotografia. É uma escolha entre a memória de um momento e uma foto que nem sempre transmite aquela emoção e que pode até ficar ruim (tremida, luz ou foco inadequados e outras coisas que nem sempre acertamos). Algumas vezes me arrependo por não ter tirado a foto, mas tudo bem. Foi uma aposta perdida.

A opção acima é pessoal e não quero impor como certa. Quero é protestar sobre quando a opção por acumular atrapalha os outros. Fico pasmo de ver em shows hoje em dia a quantidade de pessoas com os celulares levantados para filmar o show. Provavelmente para postar no Facebook ou Youtube e nunca mais ver. Até porque provavelmente vai ficar muito ruim e com som quase inaudível. E essa inutilidade toda às custas da visão de alguém que será atrapalhado, às vezes por um longo período de tempo.

Outro dia em um museu vi outra forma de acumulação digital. Fiquei impressionado com a quantidade de pessoas tirando fotos dos quadros ao invés de admirá-los. Fotos sem tripés e que provavelmente sairão tremidas e mal enquadradas, fora a chance de ter a foto avacalhada pelo trânsito de gente dentro do museu, que estava bem cheio naquele dia. E ainda te olham com cara ruim se você quer simplesmente parar próximo ao quadro e explorar seus detalhes, atrapalhando a foto. O porém é que na loja do museu haviam livros com fotos do acervo - fotos profissionais e com comentários sobre os quadros e autores. E o museu também tinha um aplicativo onde se pode ver boa parte do acervo no celular ou tablet. E ainda há o bom e gratuito Google Images onde conseguimos imagens de alta resolução dos quadros mais famosos gratuitamente. Então pra quer perder tempo fazendo uma foto que provavelmente será ruim e irá atrapalhar alguém? E que talvez você só veja uma vez e nunca mais?


E pra terminar, um alerta sobre algo que poucos se preocupam quando se fala de acumulação digital (de coisa boa ou não). Você se preocupa em fazer cópia - ou cópias, no plural - de segurança? Discos rígidos pifam ou se queimam com raios e computadores são roubados. E o que você faz para garantir que não vai perder as fotos do seu filho quando bebê ou das férias inesquecíveis?

P.S.: procurando uma imagem para esse post topei com esse texto divertido no site do The Guardian sobre boas razões para se filmar um show. Confira AQUI.

sábado, 18 de janeiro de 2014

Os Beatles no ar



Os Beatles estão de novo no ar, e não é “no céu com diamantes”. É no novo álbum lançado por esses dias – sim, é possível se lançar algo novo dos Beatles de vez em quando – “On Air – Live at the BBC Volume 2”. O álbum é a 2ª compilação de gravações dos Beatles para programas da emblemática rádio inglesa British Broadcasting Corporation, a BBC. O primeiro volume foi lançado em 1994 e agora os fãs ganham mais uma compilação e com músicas inéditas. Entre 1963 e 1965 os Beatles gravaram diversas músicas para shows da BBC, inclusive para o show semanal da banda “Pop Go The Beatles”, e reúne várias músicas próprias e releituras de clássicos do rock e música americana que mal tinha cruzado o oceano rumo à Inglaterra.

A primeira impressão é de que essas compilações são somente para fanáticos como eu, que colecionam tudo que sai da banda. Porém, para quem deseja conhecer um pouco mais dos Beatles e, principalmente, sobre os primórdios da história do rock, é audição mais do que recomendada por vários motivos.

O primeiro é a escolha que os Beatles fizeram, após poucos anos de sucesso, de abandonar os shows ao vivo. Além disso, a qualidade das gravações ao vivo existentes é péssima devido aos equipamentos da época e aos gritos histéricos que abafavam os poucos watts disponíveis nos amplificadores usados então. As performances na BBC, apesar de não serem verdadeiramente ao vivo, tinham um clima muito próximo a isso, pois eles dispunham apenas de um canal de gravação e quase todas as músicas eram gravadas de uma só vez, com pouquíssima ou nenhuma edição posterior. Antes do sucesso, os Beatles eram uma banda que tocava noite após noite, por horas a fio, em bares e casas noturnas. E para dar conta precisavam, além da energia, de um repertório grande, capacidade para “garimpar” e incorporar novas músicas e de produzir suas próprias composições. Assim, as gravações da BBC são ótimas para se sentir a pegada rock e a energia dos Beatles no começo da carreira. Rock puro na veia: guitarra, baixo e bateria, como manda o figurino.

O segundo motivo é conhecer os primórdios do rock e suas raízes no Country e Rhythm & Blues. No final dos anos 50 e começo dos 60, a música americana de Chuck Berry, Little Richards, Buddy Holly e Elvis Presley estava tomando de assalto a Europa e influenciando uma massa de jovens com seu ritmo vibrante. E os Beatles foram não só influenciados, mas também influenciadores. Para se diferenciar de outras bandas, como o próprio Paul McCartney explica no livreto que acompanha o “On Air”, eles buscavam para o seu repertório músicas além das que já faziam sucesso na rádio. Pelo fato de Liverpool ser uma cidade portuária, muita coisa nova chegava pelas mãos dos marinheiros que voltavam dos EUA e os Beatles iam atrás de boas canções de artistas menos conhecidos ou, literalmente, do lado B dos discos. Com suas interpretações criativas os Beatles conseguiram imprimir sua marca até em músicas de outros e não é à toa que há quem considere músicas como “Twist and Shout” como sendo dos próprios Beatles. Como a maior parte dos dois discos da BBC são de covers, têm-se ali um excelente retrato do que era o rock nos seus primórdios e de como esse ritmo conquistou o mundo. E ainda falando de história do rock, o próprio trabalho dos Beatles preparava outra invasão, mas no sentido contrário do Atlântico. O rock americano desembarcou na Inglaterra, foi digerido e logo em seguida os invadidos seriam os próprios americanos.  No movimento que ficou conhecido como o British Invasion – a invasão britânica – o rock inglês chegou aos EUA e dominou a cena musical por um bom tempo, com bandas como os Beatles , Rolling Stones, The Kinks, The Who, The Animals e outras.

Por tudo isso a audição das gravações da BBC é ótima recomendação para se conhecer um pouco mais não só dos Beatles, mas da história do rock e de sua fase mais inocente. Some-se a tudo isso um excelente livreto que acompanha o “On Air”, que conta com textos do próprio Paul McCartney e do pesquisador Kevin Howlett contando a história e curiosidades das gravações, além de ótimas fotos. Como disse acima, é um material cujo interesse vai além dos beatlemaníacos e é diversão garantida para os fãs do estilo musical que mudou o mundo.


(Publicado no Jornal das Lajes em Jan/2014)