sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Quando os deuses andavam entre nós


Na Grécia antiga os deuses e semideuses conviviam com mortais. Disfarçavam-se ou se transformavam para seduzir jovens incautos. Na Ilíada de Homero, até escolheram lados e combateram na Guerra de Tróia junto aos heróis Heitor, Ulisses e os exércitos troianos e gregos. Porém, não vou falar dos deuses gregos, mas sim dos deuses de nossa música popular brasileira, a MPB – sigla que abriga artistas com estilos tão diferentes entre si tal qual os príncipes e irmãos Páris e Heitor. Três livros que passaram por minhas leituras recentes contam várias histórias de quando os nossos deuses da MPB andavam entre nós e eram vistos nos bares, clubes obscuros e ruas que nós conhecemos: Tom Jobim, Vinícius, Chico Buarque, Milton Nascimento, Elis Regina, João Gilberto, Lô Borges e um panteão completo de outros grandes nomes.

O primeiro é “Os Sonhos Não Envelhecem”, de Márcio Borges, que conta a história do Clube da Esquina.  Márcio, um dos irmãos da talentosa família Borges foi, junto com o mais velho Marilton, um dos primeiros a conhecer Milton Nascimento em Belo Horizonte. E foi o seu primeiro parceiro em composições, além de um dos letristas principais do Clube da Esquina, ao lado de Fernando Brant e Ronaldo Bastos (Márcio assina letras como “Tudo que você podia ser”, “Clube da Esquina nº 2”, entre outras). É uma narrativa em primeira pessoa, fiada na memória de um dos fundadores de um clube que ganhou notoriedade internacional. Além disso, é reconhecido hoje como um dos movimentos que não só sacudiu a música brasileira na ressaca pós-bossa nova, mas que trouxe para MPB influências do rock inglês (leia-se Beatles).

Além de uma leitura prazerosa, o livro se destaca por contar histórias interessantes do Clube, desde a ida de Milton para BH, o começo do seu sucesso nacional com “Travessia” e a entrada em cena dos parceiros mais jovens Lô Borges e Beto Guedes, que eram crianças quando Milton começou a compor com Márcio. A história da gravação do álbum antológico “Clube da Esquina”, que levou o movimento para além das montanhas de Minas, é um trecho de destaque da bela história da reunião de talentos e de um trabalho construído a várias mãos. A sintonia do grupo é a tônica da história e é bem exemplificada no trecho onde se conta a história da famosa “Para Lennon e McCartney”. Em um barulhento almoço na casa dos Borges, Lô mostrou a melodia que havia composto. Dali Márcio e Fernando Brant saíram para quartos separados e, após meia hora, cada um voltou com um trecho da letra, cabendo a Márcio o “porque você não verá...” e Fernando assinando a parte “eu sou da Ámerica do Sul...”. Genial, não? Pois foi isso o Clube da Esquina, uma seleção de talentos que ainda por cima sabiam jogar como um time.

A segunda leitura, também um belo relato em primeira mão, é o “Noites Tropicais” de Nelson Motta. Nelson foi testemunha do nascimento da Bossa Nova, além de parceiro em composições de Dori Caymmi, Marcos Valle, Lulu Santos e outros. Após uma carreira como músico que durou muito pouco, ele se tornou um produtor musical respeitado e teve toda sua vida ligada à música e grandes artistas. Nos anos 90 ainda foi responsável pela descoberta e lançamento de Marisa Monte. Credenciais mais do que suficientes para garantir histórias interessantes em um livro que conta passagens relevantes da música brasileira desde a bossa nova até o estouro do rock nacional nos anos 80. Em suas páginas transitam gigantes que, por sua proximidade a Nelson, ganham uma vida que salta das páginas para nossa imaginação, como Elis Regina, Tim Maia e Roberto Carlos. Musicalmente falando, é abrangente pela diversidade de estilos que passam pelas páginas, desde o samba e bossa nova até o rock, passando pelo funk/soul e a moda da discoteca dos anos 70 (Nelson estava, por exemplo, por trás da formação de As Frenéticas). De fato, uma bela coleção de histórias interessantes, como a criação do famoso Circo Voador, berço da explosão do rock nacional.

A última leitura foi “Chega de Saudade”, de Ruy Castro, sobre a história da Bossa Nova e de como esse movimento saiu da zona sul do Rio de Janeiro e ganhou o mundo, virando quase sinônimo de música brasileira no exterior. Focado na “Santíssima Trindade” da Bossa Nova – Tom Jobim, Vinícius de Moraes e João Gilberto – o livro conta em detalhes a transformação vivida pelo excêntrico João Gilberto, que desembocou na criação da famosa batida, e como esse ritmo encontrou um porto seguro nas composições de Tom e letras do Poetinha. O livro é fruto de uma pesquisa primorosa e traz histórias dos bastidores que valem a leitura. Conta, por exemplo, como os artistas brasileiros foram enganados por editores estrangeiros inescrupulosos que os lesaram nos direitos autorais. Ou como vários artistas conquistaram os Estados Unidos e quando Tom Jobim recebeu uma ligação em um bar no Rio de ninguém menos do que Frank Sinatra, convidando-o para a histórica gravação dos dois gênios.

São três excelentes leituras que deveriam vir acompanhadas de áudio para se ouvir os artistas e músicas citadas. Mesmo sem o áudio, as músicas vêm à cabeça enquanto se lê. Os três livros despertaram em mim uma grande vontade de ir atrás de álbuns históricos e ir mais fundo na discografia de vários artistas. Infelizmente, nem tudo está à disposição em catálogos, mas vamos procurando, pois é uma busca sempre bem recompensada. Por fim, as leituras nos fazem refletir sobre a polêmica do momento, o movimento encabeçado por certos artistas para se proibir a publicação de biografias não autorizadas. Dá pra se pensar em quantas grandes histórias poderão não ser contadas por conta de uma censura prévia idiota.


(publicado no Jornal das Lajes, novembro/2013)

domingo, 16 de junho de 2013

Sonho realizado

Em maio realizei um dos meus maiores sonhos: ver ao vivo um show de um ex-Beatle, o Paul McCartney. Quem me conhece um pouco sabe o quanto sou fã e venero os Beatles. Assim, já sabem que me é impossível escrever qualquer coisa sem paixão ou com algum distanciamento para se fazer uma análise minimamente racional. Então desisto desde já desse caminho e vou partir para o caminho da emoção, que foi o que me dominou naquele show.

Na mais do que excelente companhia de Andreza, minha esposa, e minhas primas Júnia e Eloísa, fui para show com muita expectativa e, ao mesmo tempo, com uma curiosidade enorme sobre qual seria o repertório. Até porque era o primeiro show da turnê Out There então o repertório era só especulação. A ansiedade só ia aumentando à medida que nos aproximávamos a pé do Mineirão. À volta do estádio já se podia sentir um pouco do clima do show: milhares de pessoas com camisas dos Beatles e até uma dupla com trajes no melhor estilo Sergeant Pepper’s. Como era de se esperar, a faixa etária do público ia literalmente dos 8 aos 80, prova da influência que os Beatles ainda exercem mesmo passados mais de 40 anos do fim da banda. Entrada razoavelmente tranquila no estádio após uma fila e lá vamos nós. Diga-se de passagem, não houve nada de desabonador para a organização do show, que, apesar das mais de 50 mil pessoas, correu sem problemas da chegada à saída.

Por maiores que fossem as minhas expectativas, fui surpreendido pelo Paul do começo ao fim. Em primeiro lugar pelo repertório. Tocou clássicos obrigatórios dos Beatles ou de sua carreira solo, como Hey Jude, Let It Be e Maybe I’m Amazed. As surpresas do repertório ficaram por conta de músicas menos conhecidas – aquelas que só beatlemaníacos como eu conhecem – tal como Let Me Roll It ou Mrs. Vanderbilt. Mas a maior surpresa ficou por conta de duas faixas do legendário disco Sergeant Pepper’s, Lovely Rita e Being For The Benefit of Mr. Kite, essa última uma composição muito identificada com John Lennon. Muita emoção para um fã ver e ouvir tudo isso ao vivo.

O segundo ponto que surpreendeu foi a simpatia do Paul com o público e toda reverência dedicada aos mineiros ao se esforçar para falar expressões como “trem bão, sô”. Vale destacar a homenagem feita no palco para as moças que encabeçaram o movimento “Paul, vem falar uai!” e que recolheram milhares de assinaturas para trazê-lo à BH. Paul definitivamente conquistou o público com seu jeito simpático e, apesar dos cartazes do público de “thank you, Paul”, ele fez questão de agradecer todo o tempo pela vibração da plateia. Outro ponto curioso do show foi a singela reverência ao seu lendário baixo Hofner, que o acompanhou nos Beatles e depois. Homenagem mais do que justa pelo músico que reinventou o som do baixo no rock ao seu instrumento mais emblemático.

Por fim, a última surpresa foi a longa duração do show (quase três horas sem intervalos) e como Paul conseguiu chegar ao final com a voz inteira. Quase não acreditei quando, após mais de 30 músicas, ele mandou a plenos pulmões a pesada Helter Skelter. Haja garganta. E o fim foi glorioso, com a notória trilogia Golden Slumbers/Carry That Weight/The End, que encerra o último álbum de estúdio dos Beatles, o Abbey Road. Nada mais apropriado para fechar o espetáculo.

Eu poderia até falar de algumas coisas não tão boas do show, mas a cada dia que passa elas vão perdendo a relevância e só consigo me lembrar das boas e da emoção de ver um dos meus ídolos maiores ao vivo. Passados quase dois meses ainda corre um frio na espinha ao me lembrar do Mineirão lotado cantando Hey Jude ou do estádio com as luzes apagadas e a arquibancada transformada em um céu estrelado pelos celulares durante Let It Be. E enquanto escrevo esse texto as lágrimas vêm aos olhos só de me lembrar da energia do show e da vibração do público. E não resta mais nada a dizer a não ser “thank you, Paul”. Obrigado por esse momento inesquecível.

“And in the end, the love you take is equal to the love you make.”


E pra quem quiser ler um texto bacana sobre o show, valeconferir nesse link o que o blogueiro oficial do Paul, Stuart Bell, escreveu sobre BH e Goiânia.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

“Os óculos do John ou o olhar do Paul?”*


Em tempos de volta do Paul McCartney ao Brasil é sempre oportuno escrever sobre os Beatles. Porém, para mim é sempre complicado falar sobre eles. Primeiro pelo respeito que tenho aos meus ídolos musicais maiores e, segundo, pelo medo de ficar “chovendo no molhado”. Talvez alguém já tenha chegado à mesma conclusão sobre o que eu vou falar abaixo, mas, registre-se, não é plágio. Recentemente, ouvindo o álbum Revolver, percebi que ele é uma verdadeira aula sobre quem são os Beatles, o que eles se tornaram e o que foi a dupla John Lennon e Paul McCartney.

O Revolver é um álbum marcante, mas, por razões que não entendo, com poucas músicas conhecidas do público que ouviu Beatles em coletâneas – os não iniciados na beatlemania. Talvez tenha sido eclipsado pelo álbum que se seguiu, o mítico Sergeant Pepper’s Lonely Hearts Club Band e, por isso, é pouco lembrado. Acho, porém, que as sementes do Sergeant Pepper’s já estavam plantadas no Revolver. O álbum foi gravado na época em que os Beatles, cansados da histeria da beatlemania, abandonaram o palco e investiram na criação em estúdio. Além disso, foi um mergulho de cabeça em algumas coisas que marcariam os anos seguintes: a influência indiana, drogas e a psicodelia, o que faz do álbum um verdadeiro prelúdio para o Sergeant Pepper’s. Além desses fatores, o álbum se presta a uma bela audição didática, tal como disse acima.

John Lennon e Paul McCartney quando trabalhavam juntos faziam suas músicas soarem com uma unidade incrível, como se fossem compostas por um terceiro músico. Separadamente, porém, cada um era um universo musical e talvez a força dos Beatles venha daí. John era mais rock, no sentido amplo da palavra: contestador, enérgico e guitarra na veia. Paul é mais melódico: melodias suaves, arranjos sofisticados e lirismo. E pra provar isso basta ouvir faixa após faixa do Revolver. A primeira de Paul é “Eleanor Rigby”, que traz um arranjo de cordas lindíssimo. Tal como em “Yesterday”, a base rock – bateria, baixo e guitarra – ficou de fora. Na sequência vem “I Am Only Sleeping” de John e a pegada rock deixa evidente o contraste de estilos.

Logo depois vem “Here, There and Everywhere” – precedida por “Love You Too” de George Harrison, sobre quem falarei abaixo – e o lirismo de Paul fica evidente nessa música belíssima, que é doce sem ser açucarada. Na sequência vem “She Said She Said”, no qual logo se reconhece o estilo de John. Em seguida, em “Good Day Sunshine” Paul mostra que também bebe na fonte do rock, mas traz algo com elementos do jazz vocal dos anos 50. De fato, em 2012, Paul mostrou com o seu álbum “Kisses on the Bottom” que sempre foi influenciado por esse estilo de música. E John volta a carga com “And Your Bird Can Sing”, cujo solo de guitarra na abertura dá a levada da música. E mais contraste: em “For no One” Paul traz mais uma vez instrumentos clássicos para o estúdio. E assim vão se sucedendo: John vem com “Doctor Roberts”, Paul com a vibrante “Got to Get You Into My Life” e – o grand finale – a viagem lisérgica de “Tomorrow Never Knows”. Não há jeito mais fácil e rápido de entender quem são Paul e John e como a soma de seus estilos definiu os Beatles.

E George Harrison? Para conhecê-lo, o Revolver também é essencial. A meu ver, foi o álbum que revelou George como um compositor amadurecido, dando uma boa dica das grandes composições que viriam nos álbuns seguintes, como “Piggies” ou suas emblemáticas “Something” e “Here Comes the Sun”. Ao contrário da maioria dos discos dos Beatles onde George mostrava apenas duas músicas, em Revolver ele emplaca três: “Taxman”, “I Want to Tell You” e “Love You Too”, essa última marcada pela influência indiana. Por fim, vale lembrar que Ringo Starr também ficaria marcado por esse álbum, ainda que algum tempo depois: é ele quem canta a clássica “Yellow Submarine”, que viria a ser o tema da famosa animação.

Por tudo isso, a audição de Revolver é mais do que recomendada para quem quer conhecer melhor os Beatles. O álbum revela o amadurecimento musical do quarteto, que largou para trás os terninhos e canções inocentes para fazer música séria, investindo em arranjos cada vez mais complexos e nas experimentações que o estúdio e o talento do produtor George Martin permitiam. Na sequência de Revolver viria o Sergeant Pepper’s e o conceito de disco de rock nunca mais seria o mesmo, mas essa história fica para outro dia.



*Para este título não resisti à tentação de tomar emprestado o trecho de “O Papa é Pop”, de Humberto Gessinger.

(Publicado no Jornal das Lajes, maio/2013)

quarta-feira, 1 de maio de 2013

O gênio vence a ignorância


Os mais novos talvez ignorem que houve um período recente de nossa história em que a produção cultural viveu sob a sombra da censura. Músicas foram proibidas, textos foram truncados e publicações recolhidas de balcões de venda em uma tentativa medieval de frear a inventividade humana e condicionar o pensamento de uma sociedade. Apesar de ter crescido na fase mais branda dessa repressão e censura, ainda me lembro do disco “As Aventuras da Blitz” com suas duas faixas inutilizadas pela censura com riscos no LP. Ou de ouvir no rádio a canção “Faroeste Caboclo” com o trecho “filha da puta sem vergonha” suprimido. Mas é sobre outra história de cunho particular que escrevo para lembrar aqueles dias.

Na coleção de discos do meu pai sobrevive uma pièce de résistance que nos remete aos tempos de nossa recente idade das trevas, um compacto duplo da Phillips com as quatro primeiras colocadas no III Festival Internacional da Canção Popular, promovido pela Rede Globo em 1968. Entre elas, duas músicas que protagonizaram uma polêmica e tanto na final nacional desse festival, “Sabiá” de Tom Jobim e Chico Buaque e “Caminhando (pra não dizer que não falei das flores)” de Geraldo Vandré, respectivamente, primeira e segunda colocada da etapa nacional.

“Caminhando” ganhou o público por razões óbvias. Poucos meses antes do infame Ato Institucional no. 5 - e do endurecimento do regime que se seguiu - talvez alguns ainda acreditassem que as flores venceriam o canhão. A música se tornou praticamente um hino de resistência à ditadura e, apesar de proibida logo após o festival, foi cantada ainda por muito tempo depois. Ainda nas eliminatórias do festival ela ganhou a preferência do público e despertou a ira dos militares. Zuza Homem de Mello descreve no seu ótimo “A Era dos Festivais” a conversa via telefone do ajudante de ordens do general Sizeno Sarmento, comandante do 1º Exército, com Walter Clark, diretor da Globo. Clark foi informado de que “Caminhando” não poderia ganhar o festival ou medidas enérgicas seriam tomadas. Porém, na votação o júri quem levou foi a belíssima “Sabiá” por uma diferença mínima na pontuação.

No anúncio do resultado, ao ser revelado que o 2º lugar era de Vandré, o Maracananzinho se tornou uma vaia só. Vandré foi nobre e pediu ao público respeito a Tom e Chico. Infelizmente o vídeo se perdeu no tempo, mas o áudio pode ser curtido abaixo, com Vandré interpretando a canção acompanhado só do violão. Infelizmente a vencedora foi interpretada pela dupla Cynara e Cybele (as irmãs do Quarteto em Cy) debaixo de vaias ensurdecedoras. Tempos quentes e apaixonados.


No calor do momento, infelizmente não foi dado o devido reconhecimento à “Sabiá”, que é uma canção linda onde Chico, que se encontrava na Europa há um bom tempo para evitar problemas com os militares, canta a saudade de sua terra. “Sei que ainda vou voltar”. O FIC era dividido em duas etapas, uma nacional que qualificava o vencedor para a etapa internacional, e a segunda com artistas estrangeiros. “Sabiá” faturou também a competição internacional e mais uma vez sofreu com as vaias. As duas irmãs, acompanhadas ao palco pelos autores, não se intimidaram e seguiram em frente mais uma vez.

Esse compacto que meu pai guarda é um sobrevivente da ignorância daqueles anos. Nos dias seguintes ao festival ele foi comprado por minha tia Lucinha e enviado por correio ao meu pai, que na época morava na Argentina. Em menos de 30 dias após a final, a canção de Vandré teria sua execução proibida e os discos restantes recolhidos pela inquisição ditatorial. Graças ao zelo que é peculiar de meu pai, o compacto está guardado e em perfeitas condições.

O valor desse pequeno disco transcende a sua provável raridade (me pergunto quantos iguais ainda se encontram por aí). Pode parecer pouco, mas não deixa de ser uma vitória do gênio humano sobre aqueles que espalharam a brutalidade e tentaram enterrar aquilo que nos distingue dos animais: nossa inteligência e as artes. Aqueles militares e apoiadores do regime estão quase apagados da memória coletiva, relegados à sarjeta da nossa história, mas a música de Vandré, Chico e Tom sobreviveu e ainda serão lembradas por muito tempo como bem merecem.


domingo, 7 de abril de 2013

Há esperança


Na última sexta fui ao Sesc aqui em São José dos Campos ansioso para ver o show do Cama de Gato, grupo lendário da música instrumental brasileira. O grupo foi fundado em 1982 pelo saxofonista/flautista Mauro Senise e o baterista Paschoal Meirelles – que permanecem na formação atual – além do baixista Arthur Maia e o pianista Rique Pantoja, todos instrumentistas hoje consagrados na MPB. Atualmente conta, além de Meirelles e Senise, com Jota Moraes no piano, André Neiva no baixo e Mingo Araújo na percussão.

O show era gratuito (belo habito do Sesc aqui) e antes fiquei imaginando se tal constelação de músicos – todos podem ser colocados entre os melhores do país nos respectivos instrumentos – atrairia público decente no país do Lek Lek (e está aí a Mercedes Benz que não me deixa mentir). Ia ser constrangedor ter espaço vazio para prestar a reverência que o grupo merece. Chegando lá respirei aliviado: casa cheia e público empolgado, que vibrou com o show. Então creio que posso dizer que há esperança. Há ainda público para valorizar um estilo de música que não toca nas rádios ou tv. E músicos que, apesar de não serem conhecidos do grande público, são lendas como Senise e Meirelles.

E o show em si foi inesquecível. Já falei sobre o virtuosismo dos instrumentistas do grupo, músicos incríveis e que fizeram coisas sensacionais. Acho que o músico virtuoso e um craque de futebol como Ronaldo ou Messi têm algo em comum: fazem coisas fantásticas que conseguem, ao mesmo tempo, ser inacreditáveis e parecer fácil (para eles ao menos). Porém, acima disso, eles conseguiram uma coesão de som além do normal, soando de fato como um grupo e não uma reunião de músicos.

O show faz parte de um ciclo em homenagem ao Weather Report, grupo de jazz fusion de Wayne Shorter e Joe Zawinul – e que já teve em suas formações Airto Moreira e Jaco Pastorius – e que foi uma das bandas mais influentes do jazz dos anos 70 e 80. Porém, arrisco dizer que o Cama de Gato não ficou devendo nada ao Weather Report ou mesmo ao Return to Forever, outra referência do jazz fusion, composta por Chick Corea, Stanley Clarke, Al di Meola e outros. Músico por músico, temos uma disputa boa, quase um empate técnico. Tenho dúvidas, porém, se alguma dessas bandas conseguiria imprimir um swing que é brasileiro e quase inimitável na sua seção rítmica. Se o jazz fusion é a mistura do jazz com rock e outros elementos, o Cama de Gato ainda acrescentou temperos brasileiros do samba, choro e baião. Não é qualquer “cozinha” que prepara um prato desses.

Por fim, a única nota depreciativa do público foi, em vários momentos, a conversa excessiva. Faltou em determinados momentos um pouco de respeito ao grupo, como se eles estivessem lá para fazer um fundo sonoro para alguns mal educados papearem. Porém, como disse antes, há esperança. Aos poucos, quem sabe, a plateia vai se educando para apreciar o que é grandioso.

p.s.: a nota triste fica por conta da perda de Marku Ribas nesse fim de semana. Uma bela homenagem pode ser vista no blog do meu amigo Luiz Henrique Garcia aqui.

quarta-feira, 6 de março de 2013

Avanços sociais no Brasil: a importância do Bolsa Família, o caminho percorrido e futuro


A eficiência demanda método e pesquisa. Sem isso, qualquer tarefa ou projeto minimamente complexo termina com pouco resultado, a menos que ocorra um milagre. Porém, em políticas públicas, milagres não existem. É o que mostra a ótima matéria publicada na edição 74 (Nov/2012) da Revista Piauí, sobre o economista Ricardo Paes de Barro, cujo trabalho e pesquisas forneceram o elemento que faltava para amarrar os diversos programas sociais sob o guarda-chuva único do Bolsa Família, o primeiro a trazer resultados expressivos na redução da pobreza e da desigualdade.

A matéria vale a leitura (pdf disponível NESSE LINK), pois conseguiu traduzir para leigos os fundamentos do trabalho de Paes de Barros, baseado em conceitos complexos de estatística e econometria, que apontaram a direção para se criar um programa eficiente de distribuição de renda. Paes de Barros se interessou pelo estudo da desigualdade e distribuição de renda no seu doutorado e dedicou boa parte dos seus estudos para entender os fatores envolvidos e o que poderia reverter o quadro brasileiro.

Tentando encurtar a história, pensava-se que o crescimento econômico traria junto emprego e melhores salários, logo, reduzindo a pobreza e desigualdade. Entretanto, veio o milagre econômico dos anos 70 e não foi isso que aconteceu. Naquele período o país cresceu a taxas “chinesas” (para falar a língua atual) e o que se verificou foi o aumento da desigualdade (menos pessoas concentrando mais renda).

Na época, dois estudos independentes apontaram duas causas relacionadas. A primeira seria a política salarial. Por muito tempo o governo concedeu reajustes ao salário mínimo abaixo da inflação, fazendo com que o mesmo perdesse o seu valor real.  Aliás, uma política conveniente a um governo patrocinado por grandes grupos empresariais. O segundo estudo, conduzido pelo economista Carlos Langoni (ex-presidente do Banco Central) chegou a uma explicação alternativa: ele conseguiu demonstrar a correlação positiva entre anos de estudo e renda, isto é, para cada ano a mais de estudo o cidadão tem um acréscimo na sua renda. A baixa disponibilidade de pessoal qualificado (técnicos, engenheiros, etc), combinada com a alta demanda por esses profissionais fez com que os salários subissem muito. Boa e velha lei da oferta e demanda. Assim, aprofundou-se o abismo entre pessoas com estudo e os sem.

Uma das medidas da desigualdade é o coeficiente de Gini. É um número entre 0 e 1 onde os extremos são situações teóricas: uma sociedade igualitária onde todos tem a mesma renda (Gini = 0) ou um país onde apenas uma única pessoa detém toda renda (Gini = 1). Assim, quanto mais próximo de zero, mais equilibrada é a distribuição de renda. Para fins de comparação, a tabela abaixo traz valores fornecidos pelo Banco Mundial.


Como se vê, países desenvolvidos (à exceção dos EUA), possuem o coeficiente entre 0.30 e 0.35. Países subdesenvolvidos variam entre 0.50 e 0.65. O Brasil viu o coeficiente saltar de 0.557 para 0.605 entre 1960 e 1970 e o índice ficou oscilando próximo a 0.60 até 2001, quando entrou em queda acelerada até 2009, atingindo um nível menor do que em 1960. A evolução pode ser vista no gráfico abaixo, com dados retirados do IPEA. Essa velocidade na redução no coeficiente de Gini - que foi acompanhada pela redução do número de pessoas na pobreza e pobreza extrema (ver gráficos abaixo) - nunca aconteceu em país nenhum do mundo.

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A oposição e incrédulos creditam a melhora social às boas condições da economia mundial entre 2002 e 2008. Porém, não é essa a conclusão de Paes de Barros e outros pesquisadores, que defendem que entre 10% e 15% da queda se devem ao Bolsa Família. O aumento do salário mínimo, com influência positiva naqueles que recebem menores salários e aposentados, responde por algo entre 20% e 30% dessa queda.

A oposição também enfia a mão pelos pés quando provoca debates errados. Argumentam que o Bolsa Família é a soma de vários programas existentes anteriormente, mas o que o artigo mostra é que essa descentralização foi uma das razões da ineficiência dos mesmos. Ou os programas não chegavam a quem realmente precisava ou, quando chegavam, era de forma tímida. Desta forma, o mérito inquestionável do governo Lula foi organizar os programas, seus cadastros, regras e, principalmente, sua metodologia de modo a conseguir resultados expressivos.

O caminho é longo. Como se vê na tabela de comparação do coeficiente de Gini, no ritmo atual ainda levaríamos uns 15 anos para chegarmos ao nível dos EUA, e que não são uma referência. É chegada a hora de deixar de lado discussões estéreis e partidárias e concentrar no debate do que ainda falta para uma sociedade que possa ser chamada de primeiro mundo.



domingo, 13 de janeiro de 2013

Quando a psicodelia desembarcou no Brasil



O oceano chamado música brasileira sempre abrigou uma diversidade incrível de artistas e grupos, sempre mais ou menos classificados por rótulos de acordo com seus estilos e influências: bossa nova, rock, samba, caipira, sertanejo, axé e por aí vai. Poucos, porém, conseguiram transitar com desenvoltura por mais estilos e, de fato, criar pontes entre as “espécies” diferentes. Entre os que conseguiram essa façanha e sobre o qual gostaria de falar um pouco são Os Mutantes.

A história do grupo começa em 1965 mas foi em 1966 que se firmou a formação que daria notoriedade ao grupo: os irmãos Sérgio Dias (guitarra) e Arnaldo Baptista (baixo) e a vocalista Rita Lee. No histórico festival da Record de 1967 (veja aqui o que escrevi sobre esse festival), tornaram-se conhecidos do grande público como a banda de apoio de Gilberto Gil na histórica “Domingo no Parque”. Aquele festival de 1967 talvez tenha sido um divisor de águas da MPB e o marco fundador da Tropicália, que teria o seu disco-manifesto “Tropicália ou Panis et Circensis” lançado no ano seguinte.

Na ponta desse movimento de renovação da MPB estavam Os Mutantes, que traziam o elemento rock para dentro da MPB. O rock já falava português, porém, ainda numa fase ingênua marcada pela Jovem Guarda e o Iê-Iê-Iê influenciado pela fase inicial dos Beatles. Em 1968, porém, a música dos Beatles e o rock já se encontravam em outro estágio de experimentação e os tempos da psicodelia e das viagens de ácido já havia começado. O próprio lançamento do álbum Sergeant Pepper’s influenciaria decisivamente o trabalho dos tropicalistas. Com o álbum “Tropicália” quase pronto, Caetano, Gil e companhia decidiram segurar o lançamento e reformulá-lo inspirados pelo novo padrão de álbum conceitual introduzido pelos Beatles, como conta Zuza Homem de Mello em seu “A Era dos Festivais” (aliás, leitura recomendadíssima).

Os Mutantes então embarcaram nessa onda de experimentação de efeitos e foram um dos grandes percursores no Brasil do uso de guitarras distorcidas e efeitos diversos. Vale lembrar que aqueles eram tempos em que os pedais de efeitos de guitarra ainda começavam a se popularizar mesmo no exterior e o acesso aqui no Brasil era muito restrito, assim como o era aos amplificadores de grandes marcas. Os Mutantes contornaram a dificuldade graças ao gênio de Cláudio César Dias Baptista, irmão de Sérgio e Arnaldo. Um grande aficcionado por eletrônica, Cláudio construía desde amplificadores à toda sorte de efeitos, com destaque para a legendária guitarra Regulus, usada por Sérgio Dias, que possui efeitos embutidos na própria guitarra, além de ser folheada a ouro para minimizar interferências.

Outro grande apoio que a banda - e o movimento tropicalista como um todo - teve em sua experimentação veio do maestro Rogério Duprat, que sempre trabalhou grandes arranjos para orquestra, ajudando Os Mutantes a mostrar uma música original mas antenada com o que acontecia mundo afora com os Beatles e Beach Boys. Será que poderíamos chamar Rogério Duprat de o George Martin brasileiro?

A formação histórica teve uma duração curta e durou somente até 1972 quando terminou de forma tensa e amarga após somente cinco discos lançados. Na verdade seis, pois o primeiro álbum solo da Rita Lee (“Hoje É o Primeiro Dia Do Resto Da Sua Vida”) foi gravado com os Mutantes, mas a gravadora optou por lançar somente com o nome dela pois os Mutantes já haviam lançado um álbum naquele ano. Em seguida, Rita Lee abandonou o grupo e, pouco depois, Arnaldo Baptista também. Sérgio Dias ainda levou o grupo até 1978.

Em 2006 Sérgio, Arnaldo e Dinho Leme (baterista desde 1969) se reuniram para um grande concerto na Inglaterra, registrado em CD e DVD (“Mutantes ao Vivo – Barbican Theatre”) e que contou com Zélia Duncan fazendo a voz feminina. O projeto rendeu vários shows no Brasil e exterior mas já em 2007 Arnaldo abandonou o grupo e continua até hoje trocando farpas com o irmão, que segue com o grupo e lançou em 2009 “Haih or Amortecedor”, o primeiro disco de estúdio dos Mutantes desde 1974. De acordo com Sérgio, um novo disco está para sair a qualquer momento.

Já se mostrou que longevidade nunca foi requisito para que bandas escrevessem seus nomes na história, haja visto grupos como The Cream ou Secos & Molhados (sobre quem pretendo falar em breve) e com Os Mutantes não foi diferente. Apesar dos poucos anos de duração da sua formação mais famosa, marcaram seu nome como um dos grupos mais criativos do rock brasileiro. Se não for o mais criativo. Eles conseguiram renovar o rock nacional ao mesmo tempo em que aproximaram esse estilo da MPB e deixaram como legado um caminho aberto para um rock mais consistente e maduro.

Por fim, compartilho um vídeo muito bacana que foi gravado ao vivo na França e redescoberto há pouco tempo. Nele Os Mutantes interpretam uma versão em inglês de “Caminhante Noturno”. Notem Rogério Duprat na condução da orquestra e devidamente paramentado de acordo com a moda hippie e psicodélica.