sábado, 20 de outubro de 2012

Fim de semana de documentários

Em um fim de semana desses assisti dois documentários muito bons, ambos sobre grandes músicos/poetas: Raul Seixas e Vinícius de Moraes.

O “Vinícius” de Miguel Faria Jr. é uma obra de arte e muito criativo. Além do tradicional formato de documentário, com narrações e depoimentos de amigos, é entrecortado por artistas interpretando músicas de Vinícius. Estão lá Yamandú Costa, Adriana Calcanhoto, Olívia Byington, Mônica Salmaso, Zeca Pagodinho e outros. Conta ainda com uma bela interpretação de Camila Morgado e Ricardo Blat recitando poesias e textos de Vinícius.


Vinícius foi um poeta e letrista único e que cantou o amor e a vida como poucos e o documentário conseguiu capturar muito bem esse seu lado. É quase uma unanimidade entre os convidados a intensidade com que Vinícius vivia o amor, a ponto de ter sido casado com nove mulheres. Pelo visto ele viveu aquilo que escreveu em duas de suas poesias/letras: "que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure." e que “é melhor se sofrer junto do que ser feliz sozinho”. Outro ponto alto do documentário é mostrar como Vinícius navegou em águas musicais distintas, não se prendendo à bossa nova que o projetou como letrista. De fato, trabalhos subsequentes como os Afro-sambas compostos com Baden Powell ou a prolífica parceria com Toquinho produziram um material igualado por poucos na MPB. Como diz a letra da homenagem feita por Chico e Toquinho, Samba pra Vinícius, “a vida é pra valer/a vida é pra levar/Vinícius, velho, saravá”. E Vinícius soube viver.


Da MPB pro rock. Raul foi homenageado em “O Início, o Fim, o Meio” de Walter Carvalho e Evaldo Mocarzel. O documentário é muito interessante, porém, patina em certo momento. Explico. O documentário foi feliz em tratar de certos capítulos da vida de Raul. Um ponto alto são os depoimentos de seus parceiros, desde os colegas do início de carreira de Os Panteras, e os consagrados como Paulo Coelho - que, sem o menor pudor ou receio admite que apresentou as drogas à Raul - Cláudio Roberto e Marcelo Nova. Bacana também é a participação das ex-mulheres de Raul pela influência delas sobre o seu trabalho.


O filme decepciona, porém, ao focar demais no problema de Raul com o álcool e drogas. Ao meu ver gastou-se tempo demais com isso e perdeu-se a oportunidade de falar um pouco mais do Raul músico e seu processo criativo. Afinal, como já disse em um texto meu sobre Raul, no fim da vida e mesmo estando extremamente debilitado, Raul continuava afiado na composição e letras, como se pode ver no seu álbum de despedida, “A Panela do Diabo”. Assim, sem desmerecer o documentário, acho que seria mais rico se não focasse tanto nesse aspecto triste da vida de Raul pois há mais que poderia ter sido contado.


Dois grandes músicos e lendas. O próprio Paulo Coelho diz no documentário que figuras lendárias não tem história. Eles são o que a lenda contar. Acho que a frase vale para os dois, Raul e Vinícius que, tal como lendas, vão ser lembrados por muito tempo.


E nada melhor do que música pra falar de música. Segue um pout-pourri de Berimbau e Canto de Ossanha com Vinícius, Toquinho, Miucha e Tom Jobim e o clip de Maluco Beleza.






domingo, 7 de outubro de 2012

Comunismo: a história de um sistema que definiu o século XX

Pra variar, ao invés de uma reflexão, vou compartilhar um livro muito bacana que acabei de ler, "Ascensão e Queda do Comunismo" (The Rise and Fall of Communism) do escocês Archie Brown, renomado estudioso do comunismo que se dedica ao assunto desde os anos 60.

O tema é fascinante pois trata de um sistema político e econômico que marcou o século XX e definiu, para bem e para mal, a história mundial recente. Ainda me é viva a lembrança da Cortina de Ferro, da Guerra Fria e sua corrida armamentista e dos eventos que se seguiram à queda do Muro de Berlim e dos regimes comunistas europeus e foi isso que me atraiu para o livro.

Além das raízes do comunismo, desde Marx e Engels e a revolução Bolchevique, o livro conta com detalhes a ascensão e queda do regime em todos os países que o adotaram, da União Soviética ao Camboja, passando por Cuba, China e outros. O autor, porém, vai muito além de uma simples narrativa e faz uma análise crítica do sistema como um todo e de suas peculiaridades em cada país.

Naturalmente, o livro expõe fatos óbvios como a repressão e vigilância ideológica, as ineficiências inerentes ao sistema econômico planificado e o baixo padrão de vida dos cidadãos sob o regime. O que me surpreendeu, entretanto, foram três visões que ele trouxe e que contrariam o que eu sempre pensei e li sobre o sistema comunista.

A primeira visão nova foi saber que os próprios regimes soviéticos e chineses reconheceram o mal causado por Stalin e Mao Tse-Tung e que a brutalidade alcançou níveis inaceitáveis mesmo para governos despóticos. Ao compreenderem a consequência de tamanha concentração de poder e culto de personalidade, os governos que se seguiram se esforçaram para reverter várias políticas repressivas e retornar o processo de decisão para um sistema colegiado, ainda que a figura do secretário geral do partido gozasse de muitos poderes. A desconstrução de Stalin aconteceu logo após a sua morte, no famoso discurso de Khrushchev em 1956 durante o XX Congresso do Partido Comunista Soviético, quando o segundo expôs abertamente as brutalidades e extermínios em massa cometidos pelo primeiro. Já na China foi de forma mais sutil. Deng Xiaoping sabia do perigo para o próprio partido que seria denunciar um líder reconhecido como Mao e não o fez. De fato, o rosto de Mao ainda é uma marca do regime. Deng, porém, eliminou dos círculos do poder os principais aliados e herdeiros políticos de Mao, reverteu muitas de suas políticas e implantou reformas que transformariam a China na potência atual.

O segundo ponto foi a diversidade de pensamento sob esses regimes e dentro dos partidos dominantes. Sempre pensei nos partidos comunistas como instituições monolíticas e sem espaço para divergências, e nas sociedades como sem pensamento próprio, conformadas e castradas pela repressão e pelo medo. O livro revela que, apesar da do medo, a discussão existia e numa intensidade surpreendente. Driblando a censura, circulavam na União Soviética e Leste Europeu textos e traduções de livros proibidos, produzidos artesanalmente em máquinas de escrever - e multiplicados por papel carbono! - e até músicas de protesto gravadas em casa e distribuídas em fita cassete. Dentro da estrutura rígida dos partidos havia pessoas tentando promover mudanças atuando do lado de dentro do sistema e esses reformistas foram essenciais para conduzir as transformações levadas a cabo pela Primavera de Praga em 68 (que foi esmagada pelos tanques soviéticos) e a Perestroika, que foi a semente do fim da URSS e do comunismo no Leste Europeu.

A terceira revelação foi quanto aos fatores que levaram ao fim do comunismo na Europa. Enquanto se argumenta que a situação econômica ruim forçou Gobarchev a encampar as reformas da Perestroika e Glasnost, o autor argumenta o contrário. Para ele, a deterioração rápida da economia foi consequência das reformas, que levaram a uma situação incompatível de autonomia das empresas e fábricas e ausência de uma economia de mercado. De acordo com Brown, nunca foi a intenção de Gorbachev desmontar o regime comunista (e menos ainda separar as repúblicas soviéticas) e sim deixar o sistema mais democrático, o que acabou se revelando também incompatível visto que um dos pilares do sistema era a centralização do poder sob um partido e o estrito controle da informação.

O fim do livro me deixou pensando sobre qual é o futuro de dois regimes comunistas sobreviventes, China e Cuba (além de Vietnan, Coréia do Norte e Laos). A China abraçou a economia de mercado mas não abriu mão do controle político e ideológico. Até quando conseguem sustentar a situação com tantos chineses conhecendo o mundo "livre"? Cuba, por sua vez, ainda está um passo atrás em termos de economia. Penso se, após a morte, Fidel será louvado no seu país como o herói da revolução ou se será denunciado como Stalin por eventuais abusos dos poderes plenos que sempre gozou. Dúvidas para o futuro.

Por fim, uma nota triste sobre o preço do livro. No nosso "encarecido Brasil" (palavras do meu irmão Cláudio na sua coluna de gastronomia e blog), pode ser comprado por R$71.90 (preço promocional da Saraiva). Na Amazon pode ser comprado por R$29,20 (considerando o câmbio do dólar de 2,02 R$/US$ e 6,38% de IOF). E no Kindle, sai por R$20,90. É difícil ler nesse país.