domingo, 16 de dezembro de 2012

E eles ainda surpreendem


Nesse sábado tive a sorte de passar pelo Multishow e ver que eles estavam transmitindo ao vivo um dos shows da comemoração dos 50 anos de carreira dos Rolling Stones. Difícil achar palavras para descrever o que esses caras fazem e é inacreditável a energia e pegada desse quarteto setentão.

Na verdade, só o Charlie Watts (bateria) rompeu a barreira dos 70 (71 anos), mas Mick Jagger e Keith Richards chegam lá no ano que vem. O garoto da turma é Ronnie Wood que tem somente 65 anos. Era de se imaginar que eles mandassem bem em baladinhas tranquilas como “Wild Horses” ou músicas mais rockabilly como “Dead Flowers”. Ledo engano. O que se viu foi os caras arrebentarem nas músicas mais rock como “Paint It, Black” e “Gimme Shelter”.

Por mais que se fale das brigas e rachas, no palco os Stones são de uma coesão impressionante. Charlie Watts, sempre discreto e longe dos holofotes, conduz a bateria com muita competência. Ronnie Wood foi particularmente brilhante no show de ontem. Sua guitarra, seja nos solos, contracantos ou nos belos riffs, fez uma bela cama sobre a qual a banda deitou e rolou. Keith Richards dispensa comentários. Dono de uma energia surpreendente para alguém que sobreviveu a toda loucura da maldita trindade sexo-drogas-rock’n’roll, Keith detona na guitarra e sempre empolga o público nas poucas músicas que canta e nesse show não foi diferente. E Mick Jagger? O cara canta muito, dança, toca muito bem a sua gaita bluseira, tem uma presença de palco impressionante, enfim, é um show por si só. O que mais pode se esperar de um vocalista?

Tem que ser dado o devido crédito aos músicos de apoio. Além do tecladista Chuck Leavell e do saxofonista Bob Keys, que acompanham a banda desde eras remotas, merece destaque o baixista Darryl Jones que está com a banda desde 1994 quando substitui o fundador Bill Wyman. O show ainda teve uma participação mais do que especial, do guitarrista Mick Taylor que, em minha opinião, fez parte da melhor fase da banda (de 1969 a 1975), e participou de álbuns clássicos como “Sticky Fingers” e “Exile on Main St”. Taylor mostrou que sua guitarra blues continua afinada e afiada. Por fim, o show teve participações especiais muito boas como Bruce Springsteen e até de Lady Gaga. Foram legais, mas nem precisava. Os Stones eclipsaram essas participações.

Quem não viu o show e estiver lendo esse texto no domingo, o show será reprisado pelo Multishow as 21:00. Imperdível. Long live rock’n’roll, long live The Rolling Stones.

sábado, 20 de outubro de 2012

Fim de semana de documentários

Em um fim de semana desses assisti dois documentários muito bons, ambos sobre grandes músicos/poetas: Raul Seixas e Vinícius de Moraes.

O “Vinícius” de Miguel Faria Jr. é uma obra de arte e muito criativo. Além do tradicional formato de documentário, com narrações e depoimentos de amigos, é entrecortado por artistas interpretando músicas de Vinícius. Estão lá Yamandú Costa, Adriana Calcanhoto, Olívia Byington, Mônica Salmaso, Zeca Pagodinho e outros. Conta ainda com uma bela interpretação de Camila Morgado e Ricardo Blat recitando poesias e textos de Vinícius.


Vinícius foi um poeta e letrista único e que cantou o amor e a vida como poucos e o documentário conseguiu capturar muito bem esse seu lado. É quase uma unanimidade entre os convidados a intensidade com que Vinícius vivia o amor, a ponto de ter sido casado com nove mulheres. Pelo visto ele viveu aquilo que escreveu em duas de suas poesias/letras: "que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure." e que “é melhor se sofrer junto do que ser feliz sozinho”. Outro ponto alto do documentário é mostrar como Vinícius navegou em águas musicais distintas, não se prendendo à bossa nova que o projetou como letrista. De fato, trabalhos subsequentes como os Afro-sambas compostos com Baden Powell ou a prolífica parceria com Toquinho produziram um material igualado por poucos na MPB. Como diz a letra da homenagem feita por Chico e Toquinho, Samba pra Vinícius, “a vida é pra valer/a vida é pra levar/Vinícius, velho, saravá”. E Vinícius soube viver.


Da MPB pro rock. Raul foi homenageado em “O Início, o Fim, o Meio” de Walter Carvalho e Evaldo Mocarzel. O documentário é muito interessante, porém, patina em certo momento. Explico. O documentário foi feliz em tratar de certos capítulos da vida de Raul. Um ponto alto são os depoimentos de seus parceiros, desde os colegas do início de carreira de Os Panteras, e os consagrados como Paulo Coelho - que, sem o menor pudor ou receio admite que apresentou as drogas à Raul - Cláudio Roberto e Marcelo Nova. Bacana também é a participação das ex-mulheres de Raul pela influência delas sobre o seu trabalho.


O filme decepciona, porém, ao focar demais no problema de Raul com o álcool e drogas. Ao meu ver gastou-se tempo demais com isso e perdeu-se a oportunidade de falar um pouco mais do Raul músico e seu processo criativo. Afinal, como já disse em um texto meu sobre Raul, no fim da vida e mesmo estando extremamente debilitado, Raul continuava afiado na composição e letras, como se pode ver no seu álbum de despedida, “A Panela do Diabo”. Assim, sem desmerecer o documentário, acho que seria mais rico se não focasse tanto nesse aspecto triste da vida de Raul pois há mais que poderia ter sido contado.


Dois grandes músicos e lendas. O próprio Paulo Coelho diz no documentário que figuras lendárias não tem história. Eles são o que a lenda contar. Acho que a frase vale para os dois, Raul e Vinícius que, tal como lendas, vão ser lembrados por muito tempo.


E nada melhor do que música pra falar de música. Segue um pout-pourri de Berimbau e Canto de Ossanha com Vinícius, Toquinho, Miucha e Tom Jobim e o clip de Maluco Beleza.






domingo, 7 de outubro de 2012

Comunismo: a história de um sistema que definiu o século XX

Pra variar, ao invés de uma reflexão, vou compartilhar um livro muito bacana que acabei de ler, "Ascensão e Queda do Comunismo" (The Rise and Fall of Communism) do escocês Archie Brown, renomado estudioso do comunismo que se dedica ao assunto desde os anos 60.

O tema é fascinante pois trata de um sistema político e econômico que marcou o século XX e definiu, para bem e para mal, a história mundial recente. Ainda me é viva a lembrança da Cortina de Ferro, da Guerra Fria e sua corrida armamentista e dos eventos que se seguiram à queda do Muro de Berlim e dos regimes comunistas europeus e foi isso que me atraiu para o livro.

Além das raízes do comunismo, desde Marx e Engels e a revolução Bolchevique, o livro conta com detalhes a ascensão e queda do regime em todos os países que o adotaram, da União Soviética ao Camboja, passando por Cuba, China e outros. O autor, porém, vai muito além de uma simples narrativa e faz uma análise crítica do sistema como um todo e de suas peculiaridades em cada país.

Naturalmente, o livro expõe fatos óbvios como a repressão e vigilância ideológica, as ineficiências inerentes ao sistema econômico planificado e o baixo padrão de vida dos cidadãos sob o regime. O que me surpreendeu, entretanto, foram três visões que ele trouxe e que contrariam o que eu sempre pensei e li sobre o sistema comunista.

A primeira visão nova foi saber que os próprios regimes soviéticos e chineses reconheceram o mal causado por Stalin e Mao Tse-Tung e que a brutalidade alcançou níveis inaceitáveis mesmo para governos despóticos. Ao compreenderem a consequência de tamanha concentração de poder e culto de personalidade, os governos que se seguiram se esforçaram para reverter várias políticas repressivas e retornar o processo de decisão para um sistema colegiado, ainda que a figura do secretário geral do partido gozasse de muitos poderes. A desconstrução de Stalin aconteceu logo após a sua morte, no famoso discurso de Khrushchev em 1956 durante o XX Congresso do Partido Comunista Soviético, quando o segundo expôs abertamente as brutalidades e extermínios em massa cometidos pelo primeiro. Já na China foi de forma mais sutil. Deng Xiaoping sabia do perigo para o próprio partido que seria denunciar um líder reconhecido como Mao e não o fez. De fato, o rosto de Mao ainda é uma marca do regime. Deng, porém, eliminou dos círculos do poder os principais aliados e herdeiros políticos de Mao, reverteu muitas de suas políticas e implantou reformas que transformariam a China na potência atual.

O segundo ponto foi a diversidade de pensamento sob esses regimes e dentro dos partidos dominantes. Sempre pensei nos partidos comunistas como instituições monolíticas e sem espaço para divergências, e nas sociedades como sem pensamento próprio, conformadas e castradas pela repressão e pelo medo. O livro revela que, apesar da do medo, a discussão existia e numa intensidade surpreendente. Driblando a censura, circulavam na União Soviética e Leste Europeu textos e traduções de livros proibidos, produzidos artesanalmente em máquinas de escrever - e multiplicados por papel carbono! - e até músicas de protesto gravadas em casa e distribuídas em fita cassete. Dentro da estrutura rígida dos partidos havia pessoas tentando promover mudanças atuando do lado de dentro do sistema e esses reformistas foram essenciais para conduzir as transformações levadas a cabo pela Primavera de Praga em 68 (que foi esmagada pelos tanques soviéticos) e a Perestroika, que foi a semente do fim da URSS e do comunismo no Leste Europeu.

A terceira revelação foi quanto aos fatores que levaram ao fim do comunismo na Europa. Enquanto se argumenta que a situação econômica ruim forçou Gobarchev a encampar as reformas da Perestroika e Glasnost, o autor argumenta o contrário. Para ele, a deterioração rápida da economia foi consequência das reformas, que levaram a uma situação incompatível de autonomia das empresas e fábricas e ausência de uma economia de mercado. De acordo com Brown, nunca foi a intenção de Gorbachev desmontar o regime comunista (e menos ainda separar as repúblicas soviéticas) e sim deixar o sistema mais democrático, o que acabou se revelando também incompatível visto que um dos pilares do sistema era a centralização do poder sob um partido e o estrito controle da informação.

O fim do livro me deixou pensando sobre qual é o futuro de dois regimes comunistas sobreviventes, China e Cuba (além de Vietnan, Coréia do Norte e Laos). A China abraçou a economia de mercado mas não abriu mão do controle político e ideológico. Até quando conseguem sustentar a situação com tantos chineses conhecendo o mundo "livre"? Cuba, por sua vez, ainda está um passo atrás em termos de economia. Penso se, após a morte, Fidel será louvado no seu país como o herói da revolução ou se será denunciado como Stalin por eventuais abusos dos poderes plenos que sempre gozou. Dúvidas para o futuro.

Por fim, uma nota triste sobre o preço do livro. No nosso "encarecido Brasil" (palavras do meu irmão Cláudio na sua coluna de gastronomia e blog), pode ser comprado por R$71.90 (preço promocional da Saraiva). Na Amazon pode ser comprado por R$29,20 (considerando o câmbio do dólar de 2,02 R$/US$ e 6,38% de IOF). E no Kindle, sai por R$20,90. É difícil ler nesse país.

sábado, 14 de julho de 2012

Atemporalidade da música e a temporalidade do artista

Há alguns dias assisti a um ótimo show do Lô Borges.  Não poderiam faltar os clássicos como “Paisagem da Janela”, “Nuvem Cigana” e outras tantas que o consagraram. Lô Borges, porém, intercalou algumas músicas dos últimos discos, o que foi uma grata surpresa pra mim, pois conhecia pouco do que rolou. O público cantou junto as “das antigas”, mas sempre dava uma esfriada nas mais novas por serem menos conhecidas. E foi justamente isso que me fez pensar sobre o tempo das músicas e do artista e como aquelas parecem perdurar mais do que seus próprios autores e intérpretes.

Creio que nós temos uma queda pela nostalgia, muitas vezes valorizando demais o passado e sem prestar atenção no que está acontecendo agora. E com música não é diferente. Parece que paramos em determinado momento e não damos chance para coisas novas. Sejam elas vindas de novos artistas ou dos antigos, como se Chico Buarque tivesse parado em Roda Viva ou o Paul McCartney ainda tocasse com os Beatles. Mea culpa, ainda estou para comprar os últimos discos do Lô Borges e conhecer mais as músicas que me impressionaram no show.

Sobre os artistas consagrados, parece que criamos uma expectativa cruel e injusta em função do que eles fizeram no passado. A verdade é que grandes músicos ou grupos não lideraram mais de um movimento de mudança. Beatles, Tom Jobim e João Gilberto, Black Sabbath, Caetano e Gil, Milton e Lô Borges e tantos outros tiveram somente um momento de ruptura e inovação. Exceção, talvez, para Miles Davis, que esteve na vanguarda dos grandes movimentos do jazz no século XX. Quem se lembrar de outro que me ajude, por favor. Aqueles grandes momentos, porém, não diminuem o que vem depois e inúmeros trabalhos dos artistas citados demonstram que álbuns não precisam ser o Sergeant Pepper’s para serem bons.

Quanto aos novos artistas, há quem diga que nos dias de hoje não se produz mais algo que preste. A afirmação, infelizmente, tem um fundo de verdade. Ameaçados pela pirataria e downloads gratuitos na internet, as grandes gravadoras têm investido somente em trabalhos de forte apelo comercial – e de qualidade às vezes duvidosa – para ter retorno garantido. Por outro lado, a mesma internet abriu múltiplos caminhos de divulgação e é justamente lá onde estão os trabalhos bons da turma nova. Esqueçam o rádio ou televisão e saiam à busca na internet. Uma excelente sugestão é a rede social MySpace, muito usada por artistas independentes, brasileiros e estrangeiros.

Então talvez seja hora de rompermos com essas barreiras do tempo. Trazer para o tempo de hoje aqueles artistas do passado e se surpreender com a qualidade do seu trabalho atual. Ao mesmo tempo, permitir aos novos artistas escreverem seu nome no tempo. Quem for bom vai imprimir suas letras e partituras nas páginas atemporais da música. A verdade é que nem Caetano estacionou na Tropicália e nem a fonte de bons artistas está seca. Só não espere achar o novo em trilhas batidas. A propósito, o último disco do Chico é excelente.



(Publicado no Jornal das Lajes, Jul/2012)

domingo, 3 de junho de 2012

Descobertas Quae Sera



Isso não é latim. É só uma brincadeira. A descoberta ainda que tardia. A música é um processo de eterna descoberta e aprendizado. Por mais que já tenha gastado meus discos dos Beatles, volta e meio descubro algo novo. Um instrumento que passou despercebido, uma voz que não tinha ainda escutado e por aí vai. Duas descobertas que fiz recentemente, porém, não foram tão sutis: a obra de duas grandes bandas, The Doors e Legião Urbana.

Confesso que é deveras estranho eu ter demorado tanto para explorar essas duas bandas, em especial a Legião, que teve seu auge justamente nos meus anos de Brasília e era a banda mais influente da turma da minha idade. Talvez tenha sido radicalismo meu não ter dado mais crédito ao Renato Russo e Legião. Afinal, meu gosto sempre teve um viés para o instrumental, o que me fazia preferir, entre as nacionais, o Barão Vermelho ou os Engenheiros do Hawaii por conta da qualidade de seus instrumentistas. De fato, nesse quesito a Legião sempre ficou a desejar. Sinceramente, sempre achei - e continuo achando - o trio Renato/Dado/Marcelo instrumentistas bem fraquinhos. Talvez seja justamente essa mais uma razão da popularidade do grupo. Afinal, qualquer um que soubesse apenas acordes mais básicos podia tocar no violão suas músicas favoritas. Quem tem minha idade vai se lembrar das rodinhas de violão na escola, onde a Legião era quem predominava.

As razões do sucesso da Legião, porém, vão muito além da facilidade de tocar suas músicas. A atualidade e temática das músicas e letras cruas e diretas - ao melhor estilo punk, influência nítida nos primeiros discos - tocaram a alma do adolescente dos anos 80 e 90 e banda conseguiu se tornar um canal de expressão e desabafo de uma geração. Mais rock’n’roll do que isso é impossível. Hoje, felizmente, consigo ver que a força da Legião estava muito acima do instrumental e que há uma mensagem poderosa nas músicas e na interpretação do Renato Russo.

Aliás, falando em Renato Russo, não disse nada ainda do The Doors, que citei logo no começo. O pouco que conhecia e tinha ouvido de The Doors foi muito em função da mística em torno do seu vocalista Jim Morrison e creio que esse é um ponto comum entre as duas bandas: tinham líderes que de certa forma eclipsaram os demais membros. A minha descoberta recente do Doors me mostrou que a banda era mais do que Jim Morrison. Tive a sorte de achar em uma banca de promoções uma mini-caixa com toda a discografia do The Doors com o Jim Morrison no vocal (seis álbuns) e estou ouvindo com muito cuidado e atenção. Essa audição revelou um grupo bem entrosado e com uma “cama” fantástica para os vocais de Morrison, no instrumental vigoroso de Ray Manzarek (teclados), Robby Krieger (guitarra) e John Densmore (bateria). Destaque para Krieger, por ser um dos principais autores das músicas, e para Manzarek, cujo teclado - como se vê na famosa introdução de Light My Fire - é uma parte indissociável do som da banda.

Outra triste característica comum das duas bandas foi a partida prematura dos seus líderes e a mística criada em torno deles. A carreira apagada dos membros restantes após a perda dos vocalistas evidencia a importância de Renato Russo e Jim Morrison. O primeiro até teve uma carreira solo - ainda que curta - de certo sucesso, coisa que os demais nunca lograram em obter e vivem de certa forma na sombra da Legião até hoje.

Ainda que tardia, esses descobertas têm sido extremamente divertidas e recompensadoras. É sempre bom ouvir com a devida atenção o trabalho de grandes grupos que fizeram história e entender o porquê de tanto sucesso. As duas bandas deixaram uma discografia relativamente curta mas excepcional e a intensidade de suas músicas são um excelente retrato de períodos distintos (fim dos 60 e começo dos 70, no caso dos Doors, e anos 80 e 90 para o Legião). Não tem como não gostar.

P.S.: como já tem muita gente comentando o tributo ao Renato Russo pelo seus companheiros de banda e Wagner Moura, não vou discutir o assunto. Só digo que o Renato deve ter se revirado em seu túmulo com as desafinadas do Wagner Moura.

domingo, 1 de abril de 2012

A Comissão da Verdade: por que não?

Há algumas semanas compartilhei no Facebook um vídeo pedindo o esclarecimento dos inúmeros desaparecimentos ocorridos na ditadura, de uma campanha da OAB-RJ (assista no Youtube). Em discussões com amigos e acompanhando notícias na mídia, como a reação do general Torres de Melo, fico surpreso com a objeção de pessoas à Comissão da Verdade e com seus argumentos.

Um dos primeiros argumentos contra a Comissão é a punição também para quem, na luta armada, cometeu crimes como roubos, assassinatos e atentados que fizeram vítimas inocentes. Em primeiro lugar, não creio que o objetivo da Comissão seja perseguição e punição a crimes cometidos no período, até porque essas são atribuições do Ministério Público e da Justiça. E, falando em verdade, é fato que a resistência armada fez vítimas inocentes durante a luta. Essas vítimas, porém, tiveram direito a um enterro digno e suas famílias ao menos sabem onde se encontram os restos mortais de seus entes queridos. Esse mesmo direito foi negado às famílias daqueles desaparecidos nas mãos do poder oficial (ou seria oficioso?). Com todos os progressos na localização dessas pessoas, as organizações de direitos humanos ainda contabilizam 159 desaparecidos1.

Sobre uma possível punição, a discussão é um pouco mais complexa pois ainda vivemos na sombra de uma oportuna e mal digerida anistia, a tal “ampla, geral e irrestrita”. Oportuna pois foi a porta de saída de um governo ilegítimo, que rasgou a constituição, fechou o congresso e governou apoiado em mecanismos totalitários. Em última instância, sem uma anistia, os militares poderiam ser julgados por alta traição e motim ao derrubar o presidente que eles deveriam proteger. Mal digerida porque estancou uma sangria, mas nunca conseguiu cicatrizar de fato a ferida e largou na impunidade criminosos que atacaram os direitos civis e humanos mais básicos. A validade de tal lei, promulgada por um governo ilegítimo, é no mínimo questionável, como já nos mostraram nossos vizinhos Argentina, Uruguai e, de forma mais tímida, o Chile, que revisitaram as suas leis de anistia e foram atrás de criminosos.

Alguns procuradores da república estão tentando denunciar responsáveis por sequestros e desaparecimentos com base no argumento do caráter permanente do crime de sequestro (veja o link). Como as vítimas não foram encontradas, os crimes ainda persistem, o que os deixaria de fora da abrangência da lei da anistia. Vai ser uma discussão interessante e aguardo para ver qual vai ser a interpretação do Supremo para esse argumento

Por fim, preferia deixar essa discussão de punição de lado e me concentrar na importância maior da Comissão da Verdade: a verdade. Se o nosso país quer seguir em frente com um mínimo de áurea de humanidade, encontrar esses desaparecidos é algo que deveria estar na nossa agenda. No mínimo, as famílias merecem saber. Como se opor a um direito desses?





Fonte:
1. Revista História Viva, no. 102, artigo “Mortos sem sepultura”

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Janeiro e suas mulheres revolucionárias


Acompanhei, ao longo do mês de janeiro, várias reportagens que, no conjunto, me chamaram a atenção para o fato de esse mês estar ligado a quatro mulheres incríveis e revolucionárias.

Nara Leão nasceu no dia 19 de janeiro e em 2012 completaria 70 anos. Sempre será considerada como a musa e a voz feminina da bossa nova, o que por si só já lhe valeria o título de revolucionária. A bossa nova nasceu, no Rio de Janeiro, em reuniões de jovens e um dos pontos tradicionais era o apartamento dos pais de Nara. Assim, ela esteve ligada às origens desse importante movimento musical que projetou a música brasileira para o mundo. Esse destaque, porém, não fez com que ela deitasse sobre os louros ou se acomodasse na fama. Nara fez parte também de outra vanguarda importante na MPB, a Tropicália, que fundiu a música brasileira com o rock. É um caminho um tanto quanto interessante: levou a MPB pra fora e voltou com aquilo que acontecia no mundo.

Se o 19 de janeiro marcou o nascimento de uma musa, foi também a despedida de outra, a inesquecível Elis Regina, cuja morte completou 30 anos em 2012. Elis foi outra inquieta revolucionária, que sempre apostou em fórmulas novas. Conhecida por seu faro para grandes músicas, Elis ajudou a lançar jovens compositores como Renato Teixeira, João Bosco e Fagner, o que é louvável, vindo de uma cantora consagrada, que poderia se aliar somente a nomes já estabelecidos. Além disso, Elis foi única. Dona de uma voz inigualável e de uma capacidade incrível de expressar emoção nas suas interpretações, creio que não deixou seguidoras, mas sim uma grande lacuna na MPB, que demorou a ser preenchida. 

Essa data de 19 de janeiro tem mesmo alguma magia. É também a data de nascimento de Janis Joplin, um dos maiores ícones do movimento hippie e da psicodelia do final dos anos 60. Assim como Elis, Janis também conseguia colocar uma emoção muito forte na sua música. Conhecida como rebelde desde a sua adolescência, Janis logo largou a faculdade e partiu para San Francisco, onde foi destaque em um momento muito importante do rock e protagonizou apresentações históricas, como a que aconteceu no festival de Monterey, em 67, além do mítico Woodstock, em 69. 

Rita Lee não nasceu em janeiro, mas foi por muito pouco: 31 de dezembro. Não aguentou esperar um dia. Nesse mês de janeiro de 2012, porém, ela anunciou a sua aposentadoria dos palcos. Disse que o físico não suporta mais, mas deixou claro que se aposenta dos shows, mas não do rock. Rita foi outra rebelde e revolucionária. Além de ter estado na vanguarda da MPB junto ao movimento tropicalista - quando fazia parte de Os Mutantes -, na sua carreira solo abriu um caminho quase inexplorado no rock brasileiro: o da mulher roqueira. Não sei de quem é a frase, mas me lembro de ouvir dizer que, se Raul Seixas foi o pai do rock brasileiro, Rita Lee com certeza é a mãe. Felizmente, ela avisou que ainda tem material inédito para vários álbuns. O rock’n’roll agradece. 

Quanta coincidência para um só mês! Nara Leão, Elis Regina, Janis Joplin e Rita Lee, quatro mulheres emblemáticas, ligadas por um mês também emblemático, pois é ele que abre um novo ano. Pelo visto, o janeiro tem algo de musical. E de feminino também.

(Texto publicado no Jornal das Lajes, Fev/2012)

domingo, 15 de janeiro de 2012

Parcerias improváveis ou a química misteriosa de certas bandas


Grandes momentos do rock nasceram de parcerias improváveis. Conflitos de ego e estilo resultaram em uniões tensas, mas que conseguiram fazer trabalhos memoráveis e me fazem pensar sobre a química que ali existiu.

Assisti recentemente o documentário “Stones in Exile”, que conta a gravação daquele que é considerado um dos melhores discos dos Rolling Stones, o “Exile on Main Street”. Recomendo ambos: o disco, que é excepcional, e o vídeo, que conta seu processo de criação.

Em tempos “pós-Sergeant Peppers”, onde o álbum conceitual era a moda, os Stones seguiram o caminho contrário, o da improvisação. Foram juntando fragmentos de músicas e letras e, em um processo e ambiente quase caótico, fizeram um grande albúm, gravado quase todo na mansão paradisíaca de Keith Richards a beira mar no sul da França. A mansão e o lugar eram de sonhos, mas não o ambiente, movido a cocaína, heroína, outras-ínas e Jack Daniels.

Mesmo em meio a esse caos, os Stones encontravam uma força criativa e conseguiam dar forma a canções criadas de forma quase coletiva, a partir de rabiscos em pedaços de papel. Quando as coisas pareciam travar, de acordo com Keith Richards, bastava uma troca de olhares para o processo ser retomado. E isso tudo em meio a um relacionamento tenso entre os membros da banda que afetava principalmente seus dois principais “motores”, Jagger e Richards.

Outro momento marcante e tenso, e do qual saiu um disco igualmente memorável, foi a gravação do clássico “The Dark Side of the Moon” do Pink Floyd. Os atritos entre David Gilmour e Roger Waters – que culminariam com a saída do último da banda ainda em 1985  – já eram uma constante na época. “Dark Side”, ao contrário de “Exile”, foi um álbum conceitual e planejado cuidadosamente. Durante toda a criação e gravação, Gilmour e Waters – e Nick Mason e Rick Wright não escapariam das brigas – bateram de frente, com discussões sobre o papel de cada um: quem cantava, quem compunha e tudo mais. Mesmo assim, o resultado dispensa comentários. Para quem gosta da banda, recomendo a leitura da matéria “A Maldição do Pink Floyd”, revista Rolling Stone, edição 63, dez/2011. Mostra bastante essa tensão do Pink Floyd.

A lista ainda poderia incluir discos como o Álbum Branco dos Beatles, feito em um momento onde o relacionamento da banda já estava muito deteriorado, mas paro por aqui. Sempre pensei a respeito desses trabalhos e como se conseguiu resultados tão bons apesar de todos os problemas de relacionamento. Seria o profissionalismo falando mais alto? Não creio. Essa explicação é simplista demais. Penso que só profissionalismo garantiria no máximo um bom disco, não um excepcional. A música tem dessas coisas, elementos misteriosos e forças quase mágicas por trás dessas uniões, mesmo naquelas em que harmonia era o que mais faltava.