sábado, 8 de outubro de 2011

Música e preconceito


Cada vez menos gosto de axé mas cada vez mais concordo com a Cláudia Leitte. No recém-encerrado Rock In Rio a cantora recebeu uma vaia no seu show e desabafou depois, dizendo que “anormal é achar-se superior porque conhece John Coltrane ou porque adora o Metallica.” (veja mais aqui).

Axé nunca foi ou será minha praia mas, pensando sobre o que é música popular, não dá pra discordar do que a Cláudia disse. Discuta-se o que quiser sobre música: harmonia, melodia, ritmo, engajamento ou conteúdo. No fim, o que vale é o que a música te proporciona ou os sentimentos que ela desperta em uma determinada pessoa.

Assim mesmo, preconceito musical é algo recorrente. O roqueiro despreza o pagodeiro pois falta conteúdo. O jazzista despreza o roqueiro pois são só três acordes. E o clássico despreza o jazzista pois são sempre as mesmas cadências. E, mesmo entre os clássicos, Schoenberg desprezou tudo o que veio antes e criou sua própria fórmula. Mesmo com todos esses argumentos convincentes, tem alguém certo? Eu acho que não.

No fim, música é diversão, é entretenimento. É aquela lembrança gostosa que vem à cabeça. Quem sou eu para julgar quem curte sertanejo ou axé? E quem está autorizado a me julgar quando eu ouço os três acordes do Sex Pistols? Sinto muito, mas não dá pra prejulgar, julgar ou pós-julgar. Cada um na sua onda.

E falando de Rock In Rio, segue o link para um texto legal sobre o evento: clique aqui).

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Uma noite inesquecível - alguns vídeos

Amigos, o texto anterior foi escrito para o Jornal das Lajes. Porém, dei bobeira em não aproveitar as maravilhas das novas mídias nesse blog. Então, aproveito para incluir alguns vídeos do festival.

A campeão "Ponteio" com Edu Lobo, Marília Medalha, Momento Quatro e Quarteto Novo.



2o. lugar para Gilberto Gil, com a inovadora "Domingo no Parque", acompanhado por Os Mutantes.



A fantástica "Roda Viva" com Chico e o MPB4.




domingo, 5 de junho de 2011

Uma noite inesquecível








Creio que é um tanto difícil para uma pessoa, em um determinado momento, ter a exata dimensão do contexto histórico no qual está inserida. Certas passagens só têm a sua grandeza compreendida quando olhadas com o devido distanciamento de que a história precisa.

Os cineastas Renato Terra e Ricardo Calil buscaram com seu filme “Uma noite em 67” justamente compreender a importância do que aconteceu na noite da final do III Festival de Música Popular Brasileira, promovido pela TV Record em 1967 e o que aquela noite significaria para a MPB e para o rock brasileiro.

Alguns aspectos chamam a atenção para aquele evento. Primeiro, a tensão do momento, pois o Brasil já se encontrava há três anos sob uma ditadura e essa tensão se manifestaria no comportamento da platéia. O público, aparentemente mais engajado política e ideologicamente, tomava partido a favor ou contra os intérpretes de forma radical e alternava aplausos vigorosos e vaias homéricas. É nítida a apreensão dos intérpretes antes de suas performances e, quando sentiam que haviam ganhado o público, logo se via o alívio nos rostos, como aconteceu com Edu Lobo e Marília Medalha em “Ponteio”, a grande vencedora da noite. Roberto Carlos não se abalou com as vaias e ficou com o 5º lugar com “Maria, Carnaval e Cinzas”. Sérgio Ricardo anunciou ironicamente que estava rebatizando sua música de “Beto Bom de Bola” para “Beto Bom de Vaia”, tal era o clima. Logo depois, porém, ele sucumbiu: interrompeu a sua apresentação, quebrou o seu violão e o atirou na platéia, que o vaiava sem dó nem piedade.

O segundo destaque é a quantidade de talentos reunidos: Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano, Edu Lobo, Elis Regina, Jair Rodrigues, Roberto Carlos e incontáveis músicos de calibre nos grupos de apoio como Os Mutantes, o MPB-4 e o Quarteto Novo integrado por Heraldo do Monte, Hermeto Pascoal, Theo de Barros e Airto Moreira. Mesmo com um nível tão alto, surpreende saber que uma canção antológica como “Roda Viva” de Chico Buarque ficou em terceiro lugar, mas, de fato, as duas primeiras realmente mereceram os dois primeiros lugares: a campeã “Ponteio” e “Domingo no Parque”, do Gil. Era um momento raro de pura genialidade em efervescência, comparável a festivais como o de Woodstock ou o de Isle of Wight, que conseguiram reunir em um só local vários ícones de um determinado estilo.

O terceiro aspecto, talvez o mais importante, teria sido a transformação que estava acontecendo com a MPB naquele momento. Ela começava a incorporar elementos vindos de fora, em especial o rock. A “invasão estrangeira” sofreu oposição por parte dos músicos, culminando com uma inusitada passeata contra a guitarra elétrica, símbolo do “invasor”. Curiosamente, Gilberto Gil participou da passeata, mas se rendeu ao novo e contou como banda de apoio Os Mutantes, psicodelicamente paramentados e eletricamente equipados. Acabou faturando o segundo lugar. Igualmente eletrificado estava Caetano Veloso – esse, sim, havia se recusado a participar da passeata – com sua “Alegria, Alegria” que ficou em quarto lugar. Nesse momento se lançava a tropicália e a música brasileira se abria para o mundo. Como definiu depois Gil, “era a fusão de Beatles com Luiz Gonzaga e de Jefferson Airplane com a Banda de Pífanos de Caruaru”.

De acordo com os próprios artistas, essa fusão dividiu e rotulou – talvez injustamente – vários músicos e seus trabalhos como “novo” ou “antiquado”. O fato é que um capítulo importante da música brasileira estava começando. A influência estrangeira se manifestaria em outros momentos, como nos trabalhos da turma do Clube da Esquina, ou de grupos como o Secos & Molhados de Ney Matogrosso e João Ricardo. Era um caminho sem volta, talvez a prova de que a música é realmente universal. Afinal, o que é bom e inovador desconhece fronteiras, tempo e fórmulas e sabe navegar entre vários estilos.


Para saber mais:

Filme: “Uma Noite em 67” de Renato Terra e Ricardo Calil

Livro: “A Era dos Festivais – Uma Parábola” de Zuza Homem de Mello

Algumas cenas também estão disponíveis no Youtube. Procure por “Festival de Música Popular Brasileira” e é possível ver várias performances.

(Texto publicado no Jornal das Lajes, Maio de 2011)

domingo, 27 de fevereiro de 2011

O prazer de ouvir um disco


Certo dia lembrava com amigos como era ouvir um disco nos tempos do vinil. Não era fácil e era um trabalhão: tira da capa, coloca no toca-discos, posiciona a agulha. E depois de ouvir um lado, vira o disco e ouve o outro. Não vou dar uma de saudosista e louvar o “bolachão”, o chiado, as capas e tudo mais – apesar de que o formato CD empobreceu a capa do Sergeant Pepper’s ou o encarte do Álbum Branco dos Beatles. Gosto de CD e de mp3 pela praticidade e facilidade de ouvir o que quero e onde quero.

Porém, há pouco tempo percebi que justamente essa praticidade matou um dos grandes prazeres da música. Explico, voltando aos passos acima: capa, toca-discos, agulha e vira o disco. E o prazer está justamente em ouvir o disco inteiro. É quando você entende a unidade do álbum, reflexo de um momento e época pela qual passava o artista ou banda. Os grandes álbuns foram especiais não só pelas grandes músicas, mas pela coesão das mesmas, pela história contada e por catalisar momentos, experiências e transformações.

Há pouco tempo ganhei o livro “1001 Discos para ouvir antes de morrer” e, passeando pelas resenhas, comecei a me tocar do quão mais interessante é ouvir um disco inteiro, na sequência, do que somente ouvir coletâneas ou montes de mp3 do mesmo artista. Listo alguns desses álbuns que estou aos poucos resgatando:

  • Rolling Stones: Exile on Main Street.
  • Crosby, Still, Nash & Young: Déjà Vu.
  • Eric Clapton: Layla.
  • Bob Dylan: The Freewhellin’ Bob Dylan.
  • Milton Nascimento e Lô Borges: Clube da Esquina.
  • Marisa Monte: Mais.
  • Chico Buarque: Meus Caros Amigos
  • Miles Davis: Kind Of Blue

E a lista vai longe. O mp3 simplificou muito as coisas: você leva no celular ou no player, copia em segundos (lembra como era gravar as fitas cassete?) e, principalmente, facilita o acesso a álbuns fora de catálogo, especialmente nesse nosso Brasil onde é muito difícil e caro conseguir determinados títulos. Porém, essa facilidade é perigosa quando banaliza as coisas. Chega aquele seu amigo lhe dizendo que tem no pen drive todos os discos do Led Zepellin ou do The Who. Você na hora copia tudo e vai juntando vários “gigas” de música que talvez nem venha a ouvir.

Uma boa chance para resgatar esse prazer de explorar um disco são as coleções há pouco lançadas nas bancas de grandes clássicos brasileiros. Tenho visto também promoções de obras de grandes nomes como Legião Urbana, Marisa Monte e Led Zepellin relançados a preços acessíveis, provavelmente numa tentativa de combater a pirataria. Que tal aproveitar?

Nos tempos atuais do sucesso – e esquecimento – instantâneo, a sensação que se tem é de que a criatividade – ou a vontade das gravadoras de incentivá-la – anda em baixa. Afinal, artistas que mal lançaram um álbum de estúdio já estão lançando o “ao vivo” ou “acústico” com quase as mesmas músicas e pouca renovação. Mais do mesmo. Então, gastar um tempo ouvindo aqueles considerados álbuns históricos é poder desfrutar de um momento onde a inventividade e o gênio humano foram iluminados e deixaram um legado capaz de resistir ao tempo.

Por fim, recomendo também a divertida leitura do “1001 Discos...” pois desperta a vontade de ir atrás desses álbuns clássicos e que não o são sem motivo.

(Texto publicado no Jornal das Lajes, Fevereiro/2011)

domingo, 30 de janeiro de 2011

A pureza revolucionária


Citei em um post Ernesto Guevara, o Che, e pensei em falar um pouco sobre esse personagem/mito que comecei a admirar após assistir ao filme “Diários de Motocicleta” e ler a sua biografia e alguns de seus escritos.

O Che se tornou uma figura emblemática do século XX e, como acontece com os mitos, criou-se um espectro de opiniões sobre esse personagem que vão do ódio à idolatria. De mesma forma, a depender de quem a interpreta, sua imagem oscila entre o jovem revolucionário idealista e o carrasco cruel que executou, muitas vezes com as próprias mãos, aqueles considerados inimigos e traidores da revolução cubana.

Por mais difícil que seja interpretar esse tipo de mito e enxergar o homem por trás da história e lenda que os envolve, tentei fazer a uma leitura pessoal e criar minha imagem do Che. Nessa reflexão, cheguei ao revolucionário puro nos seus princípios e, definitivamente, engajado na causa de sua luta por libertação dos povos oprimidos.

Guevara desde muito jovem era uma pessoa culta e que dedicava boa parte de seu tempo à leitura. Porém, era praticamente apolítico e nada engajado nas discussões e protestos que já sacudiam o mundo e sua Argentina nos anos 50. O filme “Diários...” dá um dica de quando Che começou a despertar a sua consciência para a desigualdade e opressão dos latino-americanos. De fato, foi naquela e outras viagens (na precursora, em uma bicicleta motorizada onde tomou contato com a deprimente situação dos índios no norte pobre da Argentina, e em outra após àquela dos “Diários...”) que Ernesto viu de perto a pobreza das Américas.

Na sua última grande viagem, já um médico formado, ele chegou até a Guatemala onde se entusiasmou com as reformas promovidas pelo governo esquerdista de Jacobo Arbénz e por lá se estabeleceu. Algum tempo depois, quando Arbénz foi deposto por um golpe patrocinado pelos Estados Unidos, Che se tocou do papel maligno e imperialista que esse país exercia sobre o resto da América. Numa tentativa de salvar uma iniciativa que lhe parecia justa, Che se juntou às forças legalistas que tentavam resistir ao golpe. Derrotados, não restou alternativa a não ser fugir para o México, na época um destino relativamente seguro para esquerdistas perseguidos em seus países.

Nascia aí o revolucionário. No México ele conheceu Raul e Fidel Castro e não preciso contar sobre e a revolução cubana. Aliás, prefiro focar no que aconteceu depois da revolução. Como ministro da economia e indústria de Cuba, Che instituiu iniciativas de trabalho voluntário aos domingos nas indústrias, obras e plantações. Demonstrou então como liderar pelo exemplo, pois não faltava ao trabalho voluntário e era sempre o primeiro a chegar e o último a sair, após trabalhar, na sua semana normal, cerca de 18 horas por dia. Mesmo como ministro, escolheu uma casa pequena e simples para viver com sua família quando poderia se instalar nas luxuosas mansões do bairro de Miramar, ponto nobre de Havana. Poderia ter se tornado um burocrata acomodado e corrupto mas, ao contrário, levou a frente seu sonho de igualdade e libertação.

De Cuba entrou na clandestinidade e partiu para outras lutas que não seriam suas (aliás, seria Cuba a luta de um argentino?) no Congo e, depois na Bolívia, onde fracassou e veio ser capturado por oficiais da CIA e executado pelas mãos do governo do General René Barrientos, outro governo militar latino-americano patrocinado pelos EUA.

Sem querer cair em discussões políticas ou no mérito da revolução cubana e das tentativas frustradas do Congo e Bolívia, prefiro me ater ao homem e expressar a minha admiração pelo idealismo e compromisso com uma causa levado às últimas consequências. O que dizer de alguém que sacrificou a própria vida por acreditar que seria possível transformar a pobreza do mundo? É com justiça que Che se transformou na inspiração daqueles que recusam o conformismo e acreditam que somente a própria entrega pode levar uma luta adiante. De fato, dessa difícil leitura de um personagem complexo como Ernesto Guevara, a imagem que eu construí foi a de um revolucionário verdadeiramente puro, para o qual a luta se sobrepunha ao indivíduo.

”Hasta la vitoria, siempre.”

p.s.: como admirador de fotografia, não tem como falar do Che e não lembrar de sua clássica imagem, imortalizada pela lente do cubano Alberto Korda. Após um dia tenso do pós-revolução – centenas marinheiros morreram em um atentado em um navio que atracava no porto de Havana – Korda capturou a foto durante uma homenagem prestada pelas autoridades cubanas aos mortos. Será que ele tinha a mínima idéia do que aquela foto se transformaria?

sábado, 8 de janeiro de 2011

Veias que continuam abertas


Terminei de ler um clássico que recomendo muito: As Veias Abertas da América Latina, do uruguaio Eduardo Galeano. O seu tema central é situação de pobreza e exploração da América Latina e, para entender suas origens, Galeano faz uma revisão da colonização, independência e crescimento da região para explicar o subdesenvolvimento atrelado ao longo histórico de dependência e subserviência às potências estrangeiras.

Uma das teses propostas é de que o desequilíbrio social da região tem suas origens na colonização. Foi formada, então, uma elite dominante que prosperou com uma política essencialmente extrativista e baseada na exploração de uma mão-de-obra escrava ou semi-escrava, o que sufocou qualquer iniciativa de se investir em uma manufatura local. Além disso, as trocas comerciais de matéria prima por produtos de maior valor agregado vindos da Europa – Inglaterra, principalmente – e dos Estados Unidos, posteriormente, somente acentuaram a dependência externa.

Às potências dominantes só interessava a manutenção de uma elite subserviente nos países latino-americanos, para garantir seus interesses e manter a relação de dominação. Um ponto alto do livro é a correlação que faz o autor entre o surgimento de governos de cunho nacionalista ou socialista e o subsequente golpe de estado patrocinado pelos Estados Unidos. Sob o pretexto padrão da luta contra o “comunismo”, o resultado era sempre a instalação e manutenção de uma ditadura sangrenta para zelar com mão de ferro pelos interesses das potências dominantes.

Pelo fato de ter sido publicado em 1971, a obra pode ser taxada de desatualizada. Atualmente, alguns historiadores estão, de fato, propondo teorias que contestam aquelas de autores clássicos como Celso Furtado – fonte constantemente citada por Galeano – ressaltando o papel de empreendedores na formação econômica da América Latina. Além disso, o autor deixa claro em todo o livro que não é historiador e muito menos um acadêmico e, sim, um jornalista. Compensa essa falta, porém, com uma pesquisa primorosa e citações fundamentadas em fontes confiáveis. Finalmente, o autor possui um viés marxista e, na época, os ventos da revolução cubana que ainda sopravam eram um alento para uma esperança de mudança que não viria a se realizar.

O momento atual, porém, nos leva a refletir se de fato algumas veias não continuam abertas. Todo o desenvolvimento econômico ainda não foi capaz de eliminar bolsões de pobreza na região, do México à Terra do Fogo e, olhando para o nosso país, vemos que, apesar de progressos recentes, ainda temos um longo caminho à frente. Recursos naturais abundantes, como o gás boliviano ou o petróleo venezuelano e equatoriano, não foram suficientes para melhorar o nível de vida de populações que vivem na pobreza. Do Haiti vem outro exemplo de como um país que viveu por anos sob uma ditadura apoiada pelos Estados Unidos (ou sob ocupação direta do mesmo) e cujo resultado foi a miséria total ante uma pequena elite milionária.

Dessa forma, vejo que a leitura de “As veias” ainda permanece bastante relevante e é uma fonte preciosa para se analisar os dias de hoje e, talvez, entender a recente ascensão das esquerdas em boa parte da região. Essa ligação entre o passado e os novos tempos possivelmente forneça material para uma atualização do tema do livro. Alguém se habilita a fazê-la? Estaria aí algo útil e interessante a ser feito.

(Texto publicado no Jornal das Lajes, Dezembro/2010)