segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Delicadamente explosivos ou eternamente efêmeros


O jogo de palavras do título é consequência da minha vontade de prestar um singelo tributo a uma das maiores bandas de todos os tempos, o The Cream, grupo que entrou para a história do rock apesar de não ter durado mais de três anos e lançado somente quatro discos em sua efêmera existência entre 1966 e 1969. Efêmera porém eterna, visto a quantidade de clássicos produzidos e a influência que exerceu sobre o rock e sobre diversas bandas que viriam depois.

O nome The Cream, “a nata” em português, é uma nada modesta referência aos seus membros Eric Clapton (guitarra), Jack Bruce (baixo) e Ginger Baker (bateria) que, quando da formação da banda, já eram músicos de prestígio na Inglaterra. Clapton, por exemplo, já tinha ganhado pichações em Londres que diziam “Clapton is God” (Clapton é Deus). Baker e Bruce traziam também virtuosismo para a banda, com fortes influências de blues e jazz. Do encontro desses gênios sairia uma mistura musical explosiva que era a um só tempo sofisticada e delicada e de uma energia sem precedentes, quase selvagem.

Essa concentração de músicos de calibre fez com que o Cream fosse considerado um dos primeiros “super grupos” do rock e, possivelmente, o power trio que inspirou o surgimento do Jimi Hendrix Experience. A influência do Cream não parou por aí. O seu som pesado para a época definitivamente preparou o caminho do hard rock e heavy metal e suas performances ao vivo, com longas sessões de improviso, definiu um norte para as bandas de rock progressivo. Entre as bandas e músicos que sofreram influência direta do Cream estão o próprio Jimi Hendrix, Led Zeppelin, Deep Purple e Rush.

Na sua curta existência o Cream produziu apenas quatro discos, todos excelentes: Fresh Cream, Disraeli Gears, Wheels of Fire e Goodbye. Dentre esses, pode-se destacar o Disraeli Gears, que merece entrar em qualquer lista dos melhores álbuns do rock. Além de regravações de clássicos do blues, o grupo deixou também composições e execuções memoráveis. O solo de guitarra de Sunshine of Your Love ou o de bateria de Toad – um dos primeiros solos de bateria no rock – são o melhor exemplo da delicada explosão que era o som do conjunto. O baixo de Jack Bruce, por sua vez, não se limitava a referência para a guitarra de Clapton e tinha voz própria. Não tenho medo de dizer que Bruce, ao lado de Paul McCartney, ajudou a definir o papel do baixo no rock e está entre os melhores do gênero.

O entrosamento musical, porém, não foi suficiente para garantir harmonia na convivência do grupo, sempre muito conturbada por conta de Jack Bruce e Ginger Baker, que tinham diferenças pessoais sérias desde antes da formação do grupo. No meio das constantes brigas estava Eric Clapton trabalhando como mediador, o que eventualmente acabou cansando-o. Ainda em 1968 eles decidiram encerrar o grupo com a gravação do disco Goodbye, cujo título não era por acaso. Em 2005 os fãs ganharam uma série de disputados shows no Royal Albert Hall em Londres que renderam um CD e DVD. Se a energia primal do conjunto talvez estivesse um tanto quanto apagada, a qualidade musical não ficou devendo.

O fato é que o Cream conseguiu em meros três anos escrever seu livro na bíblia do rock. Criaram um novo estilo de tocar e cada um de seus membros definiu uma escola para seus respectivos instrumentos: a guitarra de Clapton que passou definitivamente para o panteão dos deuses da guitarra, a bateria de Baker que trouxe a sofisticação do jazz e Bruce que deu voz ao baixo no rock. Qualquer homenagem para esse grupo e seus integrantes é pouca.