sábado, 13 de março de 2010

Essa metamorfose ambulante


O ano de 1989 foi, de fato, um ano de acontecimentos. A primeira Guerra do Golfo, queda do muro de Berlim, a Revolução de Veludo na antiga Tchecoslováquia e o protesto seguido de massacre na Praça Celestial, em Pequim, apenas para lembrar alguns. Entre nós, triste nota, perdíamos o ícone do rock nacional, Raul Seixas.

Nascido Raul Santos Seixas, esse baiano descobriu o rock ainda criança, através do rei Elvis Presley. Com o grupo que viria a se chamar “Raulzito e os Panteras”, conquistou a Bahia e a oportunidade de ir para o Rio de Janeiro, onde lançaram um disco com o nome da banda. O disco fracassou, mas Raul ganhou nova oportunidade, desta vez como produtor e compositor de artistas como Jerry Adriani, Sérgio Sampaio, entre outros. O sucesso viria finalmente em 1973, com o antológico álbum Krig-ha, Bandolo! que continha, entre outras, Ouro de Tolo e Metamorfose Ambulante.

Nesse álbum Raul conseguiu imprimir o estilo que marcaria sua obra: letras elaboradas, que iam do autobiográfico ao irônico, passando, é claro, pela contestação do mundo materialista e de nossa sociedade sob uma ditadura militar feroz. A experiência como produtor trouxe para a obra de Raul uma estética apurada e arranjos de grande qualidade e em Krig-ha não foi diferente. A marca impressionante, porém, que se sobressai nesse disco – e que também seria levada por toda sua carreira – é a sua metamorfose ambulante, mais do que bem explicada por Raul em sua música homônima.

A metamorfose a qual me refiro é a musical. Explico: Raul pautou sua vida e obra em cima do bom e velho rock’n roll, encarnando a essência do roqueiro rebelde. Entretanto, nunca se prendeu a uma fórmula pronta e conseguiu como poucos artistas de rock – nacional e internacional – transitar com desenvoltura entre vários estilos. Em Krig-ha, e não foi diferente em seus outros discos, Raul vai de baladas como How Could I Know até músicas de protesto como Rockixe e o baião Mosca na Sopa.

Em toda sua obra estiveram presentes estilos musicais diversos, muito além do próprio rock. Fora a marcante influência nordestina, Raul também flertou com o samba, bolero, música sertaneja e, quem diria, até com o tango. E a metamorfose se manifestou também no estilo de suas letras e mensagens. Ainda que Raul renegasse e criticasse determinados rótulos como o de “Música Popular Brasileira” – “acredite que eu não tenho nada a ver com a linha evolutiva da música popular brasileira” – ou de músicas de protesto, ele também navegou por aquelas águas, sempre com seu humor irônico e afiado. Suas letras incluíam também reflexão pessoal e existencial, letras autobiográficas e outras marcadas pela crítica e contestação de valores pequeno-burguês de nossa sociedade materialista.

Raul conseguiu viver essa metamorfose musical sem se valer de clichês e sem repetir fórmulas, além de pautar seu trabalho sempre pela mencionada qualidade musical, o que, com certeza, coloca sua obra no nível dos grandes nomes do rock’n roll. No mundo do rock poucos conseguiram transitar em diferentes universos com tanto brilho e consistência e sem se repetir. No cenário nacional podemos lembrar alguns nomes como Rita Lee, Titãs, Cazuza e Barão Vermelho. No mundo, poucos como os Beatles, Rolling Stones e Eric Clapton conseguiram mesclar estilos e se reinventar de tempos em tempos.

Na sequência de Krig-ha viria uma série de álbuns igualmente fantásticos como Gita, Novo Aeon e Há 10.000 Anos Atrás, além de tributos ao rock, como em Raul Rock Seixas e 30 Anos de Rock. No final dos anos 70 e nos 80, Raul alternou ótimos discos como Abre-te Sésamo com outros de menor impacto. Finalmente, após passar um tempo sem gravar ou fazer shows, lança, em 1989, o bom Panela do Diabo, parceria com Marcelo Nova, do Camisa de Vênus. A voz já estava desgastada pelo consumo de álcool, cigarros e drogas. A pena e a veia roqueira, entretanto, permaneciam afiadas e Raul mostrou mais uma vez que ainda compunha músicas sintonizadas com seu tempo, como em Pastor João e A Igreja Invisível, ao invés de repetir temáticas que um dia lhe renderam frutos.

No dia 21 de agosto do agitado 1989, porém, a metamorfose ambulante se transmuta mais uma vez. O ser de carne e osso torna-se lenda do rock e da música brasileira.

Texto publicado no Jornal das Lajes, Dez/2009