domingo, 28 de novembro de 2010

O assalto à democracia


Por esses dias terminei uma leitura deveras esclarecedora, o livro “Failed States” (no Brasil, “Estado Fracassados”, editora Bertrand Brasil) de Noam Chomsky. O americano Chomsky é um dos papas da linguística moderna e poderia ser considerado talvez um “Einstein vivo” desse campo por conta de sua revolucionária teoria da sintaxe gerativa que, apesar de já ser considerada ultrapassada, em seu tempo influenciou profundamente essa ciência e formou seguidores. Nos últimos anos Chomsky se notabilizou como um crítico dos Estados Unidos, principalmente em relação à política externa do país. Ele começou a se levantar durante a guerra do Vietnã e se tornou uma das mais ferozes vozes que ousam contestar a verdade ditada por esse país, suas forças armadas e suas igualmente devastadoras corporações e grupos de mídia.

O objetivo do livro – e de boa parte de sua obra atual – é expor a falácia do discurso norte-americano de promoção da democracia quando, na verdade, é o país que mais a ataca. Enquanto tentam fazer crer que cumprem uma missão quase messiânica de propagação da democracia, Chomsky busca exemplos em várias regiões do mundo para mostrar que a promoção da democracia e dos direitos humanos só acontece quando convêm aos interesses americanos, os do país e de suas corporações.

Os argumentos desta tese não são poucos. Os EUA proveram suporte e apoio incondicional a ditaduras brutais em todo mundo se apoiando na justificativa do “perigo vermelho” no passado e ainda o faz. Agora, porém, há um novo inimigo para legitimar suas ações: o terror. Enquanto condena duramente – com razão – o regime ditatorial iraniano, ignora completamente a Arábia Saudita, outro país onde as expressões “direitos humanos” ou “liberdade de imprensa” não possuem significado. Inclua-se na lista de aliados algumas ex-repúblicas soviéticas como a Geórgia, Armênia e Uzbequistão, onde os EUA aumentam cada vez mais sua influência política e militar por conta das ricas reservas de gás e petróleo lá existentes. Alguma semelhança com a Arábia Saudita e o recém “libertado” Iraque?

Na América Latina e Caribe as marcas do patrocínio de sucessivos governos ditatoriais também se fazem sentir. A ignominiosa “Escola das Américas” foi o maior centro formador dos torturadores que se espalharam por essas terras e contribuíram para genocídios selvagens ocorridos em praticamente todos os países da região, da Terra do Fogo ao Rio Grande.

As consequências de tais políticas para os EUA e sua imagem e a arbitrariedade de suas ações podem ser considerados os pontos centrais da crítica de Chomsky. A principal conseqüência é o aumento do ódio e do sentimento antiamericano. A realidade é que o terrorismo recrudesceu com a “guerra ao terror” deflagrada após o 11 de setembro de 2001. O Iraque, onde não foram encontrados as armas de destruição em massa e os campos de treinamento de terroristas, se tornou um dos maiores pontos de convergência de voluntários de todo o mundo dispostos ao martírio em nome da jihad. O segundo ponto diz respeito ao fato dos EUA sistematicamente desrespeitarem leis e tratados internacionais como a Convenção de Genebra e acordos da OMC. Exemplos desse desrespeito são a filosofia da “guerra preventiva” (pre-emptive war), filha da Doutrina Bush, e o sequestro e detenção em Guantânamo de suspeitos de terrorismo.

Abro um parêntese para ilustrar como os EUA forjam seus próprios inimigos. O primeiro exemplo é o Irã, onde os EUA patrocinaram a derrubada do governo de Mossadegh (1951 a 1953) . Governo esse que foi democraticamente eleito e reivindicava para o país – e não para corporações estrangeiras – os lucros do petróleo. No seu lugar instalou um governo subserviente e despótico cujos atos e crescente insatisfação da população levaram à revolução islâmica e à criação do atual regime dos aiatolás.

Na Guatemala, a experiência da social-democracia liderada por Jacobo Arbénz (1951 a 1954) começava a render frutos quando um golpe militar (treinados por quem?) o derrubou. Uma das testemunhas do golpe foi um jovem que à época era pouco politizado e que se encontrava no país. Revoltado com o golpe, ele se juntou às poucas forças que resistiram mas, com a queda do governo, foi expulso do país e levou consigo a certeza sobre a influência maléfica dos EUA na América Latina. Esse rapaz se chamava Ernesto Guevara e se tornaria o um dos líderes da revolução que criou outro país do “eixo do mal”.

O livro já vale a leitura por traçar, de forma bastante sintética e atualizada, o quadro geopolítico mundial, ajudando a entender forças e atores da ordem vigente. Além disso, o autor expõe as questões sob pontos de vista diferentes e consegue trazer fatos e conexões que nem sempre são evidentes ou mostrados na mídia. O seu maior valor, porém, reside na sua crítica que, além de bem fundamentada, vem de um cidadão norte-americano e judeu que não poupa o próprio país ou a política israelense. Se o autor fosse Chávez ou Ahmadinejad, talvez não merecesse crédito.


Agradeço ao meu pai Rosalvo pela lição sobre Chomsky e a importância da teoria da sintaxe gerativa e à Andreza pelas sugestões no texto.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Delicadamente explosivos ou eternamente efêmeros


O jogo de palavras do título é consequência da minha vontade de prestar um singelo tributo a uma das maiores bandas de todos os tempos, o The Cream, grupo que entrou para a história do rock apesar de não ter durado mais de três anos e lançado somente quatro discos em sua efêmera existência entre 1966 e 1969. Efêmera porém eterna, visto a quantidade de clássicos produzidos e a influência que exerceu sobre o rock e sobre diversas bandas que viriam depois.

O nome The Cream, “a nata” em português, é uma nada modesta referência aos seus membros Eric Clapton (guitarra), Jack Bruce (baixo) e Ginger Baker (bateria) que, quando da formação da banda, já eram músicos de prestígio na Inglaterra. Clapton, por exemplo, já tinha ganhado pichações em Londres que diziam “Clapton is God” (Clapton é Deus). Baker e Bruce traziam também virtuosismo para a banda, com fortes influências de blues e jazz. Do encontro desses gênios sairia uma mistura musical explosiva que era a um só tempo sofisticada e delicada e de uma energia sem precedentes, quase selvagem.

Essa concentração de músicos de calibre fez com que o Cream fosse considerado um dos primeiros “super grupos” do rock e, possivelmente, o power trio que inspirou o surgimento do Jimi Hendrix Experience. A influência do Cream não parou por aí. O seu som pesado para a época definitivamente preparou o caminho do hard rock e heavy metal e suas performances ao vivo, com longas sessões de improviso, definiu um norte para as bandas de rock progressivo. Entre as bandas e músicos que sofreram influência direta do Cream estão o próprio Jimi Hendrix, Led Zeppelin, Deep Purple e Rush.

Na sua curta existência o Cream produziu apenas quatro discos, todos excelentes: Fresh Cream, Disraeli Gears, Wheels of Fire e Goodbye. Dentre esses, pode-se destacar o Disraeli Gears, que merece entrar em qualquer lista dos melhores álbuns do rock. Além de regravações de clássicos do blues, o grupo deixou também composições e execuções memoráveis. O solo de guitarra de Sunshine of Your Love ou o de bateria de Toad – um dos primeiros solos de bateria no rock – são o melhor exemplo da delicada explosão que era o som do conjunto. O baixo de Jack Bruce, por sua vez, não se limitava a referência para a guitarra de Clapton e tinha voz própria. Não tenho medo de dizer que Bruce, ao lado de Paul McCartney, ajudou a definir o papel do baixo no rock e está entre os melhores do gênero.

O entrosamento musical, porém, não foi suficiente para garantir harmonia na convivência do grupo, sempre muito conturbada por conta de Jack Bruce e Ginger Baker, que tinham diferenças pessoais sérias desde antes da formação do grupo. No meio das constantes brigas estava Eric Clapton trabalhando como mediador, o que eventualmente acabou cansando-o. Ainda em 1968 eles decidiram encerrar o grupo com a gravação do disco Goodbye, cujo título não era por acaso. Em 2005 os fãs ganharam uma série de disputados shows no Royal Albert Hall em Londres que renderam um CD e DVD. Se a energia primal do conjunto talvez estivesse um tanto quanto apagada, a qualidade musical não ficou devendo.

O fato é que o Cream conseguiu em meros três anos escrever seu livro na bíblia do rock. Criaram um novo estilo de tocar e cada um de seus membros definiu uma escola para seus respectivos instrumentos: a guitarra de Clapton que passou definitivamente para o panteão dos deuses da guitarra, a bateria de Baker que trouxe a sofisticação do jazz e Bruce que deu voz ao baixo no rock. Qualquer homenagem para esse grupo e seus integrantes é pouca.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Beatlemania, um vírus incurável

Maio deste ano marcou 40 anos do lançamento do álbum Let It Be, o último de estúdio dos Beatles1, a banda que escreveu um dos livros mais importantes do evangelho do rock. Os quatro rapazes de Liverpool já haviam se separado antes mesmo do lançamento do álbum e o encontro como conjunto – sem John Lennon, naturalmente – só aconteceria em meados dos anos 90, para a efêmera produção dos álbuns e a série para TV Anthology. Os Beatles, porém, sobreviveram a esse intervalo de tempo e continuaram conquistando fãs.


E eu mesmo sou um exemplo disso. Nasci em 75, cinco anos após o fim da banda e só tinha cinco anos quando John Lennon morreu. Porém, com quinze anos ganhei uma fita cassete de presente (o MP3 só surgiria na minha fase adulta) com uma coletânea dos Beatles e fiquei louco com aquilo. Ouvi a fita um sem-número de vezes e, em seguida, comecei a ir atrás dos álbuns originais e da história da banda. Fui contaminado de forma irreversível pelo poderoso vírus da beatlemania, o mesmo que havia se espalhado em boa parte da juventude dos anos 60.


Em duas oportunidades tive a chance de perceber a força do vírus. Na primeira, em um show de uma excelente banda cover do Beatles (a Sergeant Pepper’s, de Belo Horizonte), me impressionou a diversidade do público. Eu e meus primos e amigos estávamos na faixa dos dezoito anos e na platéia, igualmente empolgados, havia adolescentes nos seus doze e até casais com mais de setenta. Não faltavam, é claro, aqueles que viveram a beatlemania junto com os Beatles. A segunda oportunidade foi em uma exposição sobre os Beatles em um shopping de BH. Chamou-me a atenção uma menina, bem mais nova do que eu. A cada vez que via o John Lennon no telão exibindo um show, ela se desmanchava em choro por um ídolo que provavelmente nunca havia visto vivo.


O vírus é realmente resistente ao tempo, porém, não é surpresa dada a qualidade do trabalho dos Beatles. Álbuns antológicos como Sergeant Pepper’s Lonely Hearts Club Band e Abbey Road, canções como Yesterday, Penny Lane ou Strawberry Fields e as viagens lisérgicas de Lucy in the Sky with Diamonds e Tomorrow Never Knows foram o motor do vírus. Da época da inocência de I Want To Hold Your Hand até o amadurecimento pleno em seus últimos álbuns, os Beatles continuaram arrebanhando admiradores e fanáticos e apesar de um fim relativamente precoce – pouco mais de dez anos de existência – a música e a mensagem ficaram.


E o relançamento dos seus álbuns remasterizados e incontáveis livros disponíveis nas livrarias sobre o Fab Four, o “quarteto fabuloso”, não deixam dúvida de que o vírus da beatlemania ainda deve resistir por um bom tempo. Yeah, yeah, yeah.

1 Na verdade, foi o último lançado, pois Let It Be foi gravado antes do Abbey Road, porém, só foi lançado posteriormente.

(Agradeço à minha tia/madrinha Rejane pela sugestão do texto e, acima de tudo, por ter sido quem me apresentou aos Beatles.)

(Texto publicado no Jornal das Lajes, Julho/2010)


Sugestões para conhecer os Beatles:

Nível básico (coletâneas):

  • The Beatles: 1962 – 1966
  • The Beatles: 1967 – 1970
  • Past Masters Volumes 1 e 2 (músicas lançadas em compacto)

Nível intermediário (álbuns originais):

  • A Hard Day’s Night
  • Rubber Soul
  • Sergeant Pepper’s Lonely Hearts Club Band
  • Abbey Road

Nível avançado: toda a discografia, mais o “Live at BBC” e a coleção “Anthology” (cd e dvd).

sábado, 12 de junho de 2010

Da radicalização e da omissão




Tenho visto com certa frequência textos alertando para o ressurgimento de uma direita ultraconservadora e nacionalista na Europa. De acordo com os autores, entre as razões do fenômeno está a diminuição do nível de vida da população, conseqüência do desemprego devido à fuga das empresas para países de custos de mão de obra mais baixos e concorrência com imigrantes do leste europeu e áfrica. Traçando um paralelo, me atrevo a dizer que tenho notado outro tipo de radicalização direitista no Brasil.

Não é novidade que nos últimos anos as manchetes têm trazido uma enxurrada de denúncias de corrupção – mensalão, mensalinho, dinheiro escondido em lugares heterodoxos, a lista é grande – e, a cada matéria publicada em sites de notícias, tenho lido os comentários postados por leitores e me deixa surpreso o teor de vários deles.

A descrença com a política e com as instituições é natural, esperada e desejável visto que não há crescimento econômico ou bem estar social que sirvam de indulgência para a corrupção ou abuso do poder. O que me preocupa, entretanto, são os comentários de protesto que invocam os tempos da ditadura como solução para a corrupção. Pede-se a volta da “linha dura” como se o autoritarismo e arbitrariedade fossem a panacéia para a corrupção e imoralidade que assola a nossa política.

Ora, ou não sabem ou não se lembram que essa corrupção faz parte de nossa história há tempos imemoriais e, além disso, uma parte da oligarquia que ainda domina nossa política se fez e cresceu no rastro dos militares como prefeitos e governadores biônicos e membros de um Congresso fantoche. O nosso erro foi deixar essa bandalheira sobreviver até os dias de hoje. E digo “erro” porque, ao invés de condenarmos a liberdade e nos iludirmos com uma suposta moralidade vinda a reboque de uma ditadura, deveríamos aproveitar o melhor que a democracia nos oferece, o voto e a liberdade de expressão, para protestar e tentar moralizar a política.

Infelizmente, a imagem das caras pintadas que lutaram para tirar um presidente afundado em denúncias ficou só na lembrança e nos omitimos diante de todo esse rastro de sujeira que começou com o mensalão, atos secretos e outros tantos escândalos. Quem supostamente não se omitiu, também ficou só no campo das palavras e emails de indignação, o que é muito pouco. Assistimos à comprovação de várias denúncias e todas as manobras para abafá-las e salvar os culpados e o máximo que fizemos – eu me incluo – foi verbalizar a indignação com amigos e pequenos grupos. Em outras palavras, nos furtamos de fazer algo de maior expressão e exercer o direito sagrado de cobrar as instituições democráticas.

Antes de terminar, vale destacar uma característica irônica desses autores de comentários radicais: ao mesmo tempo em que criticam a nossa democracia e propõem uma ditadura para consertar a imoralidade, não se cansam de criticar governos como o de Chávez e de Fidel, atribuindo justamente à ditadura e à falta de liberdade os seus mandos e desmandos.

Sinceramente, entre uma democracia com todas suas mazelas como a nossa e uma ditadura bem intencionada, fico com a primeira, até porque a segunda nunca existiu, independente de ser de direita ou esquerda. A questão é não nos omitirmos e lutarmos para que a democracia funcione o melhor possível.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Duas Cubas, dois Brasis


Recentemente tive a oportunidade de conhecer Cuba, uma das últimas nações socialistas que ainda sobrevivem aos nossos tempos neoliberais. Sua castigada economia, extremamente dependente do açúcar, tabaco e café, encontrou no turismo uma tábua, se não salvadora, pelo menos atenuante da triste situação do país, que desmoronou junto com o muro de Berlim e a antiga União Soviética.

O turista goza em Cuba de uma estadia agradável, regada a um bom rum, aos melhores charutos do mundo e a uma música vibrante. Além disso, os hotéis oferecem uma recepção de alto nível e buffets fartos. A situação do turista, entretanto, contrasta com a do próprio cubano, que vive privado até de coisas básicas como um sabonete decente ou pasta dental.

Enquanto o turista desfruta de belos mojitos e lagostas, o cubano implora por gorjetas, por presentes como itens de consumo – óculos, colares e afins – ou mesmo pelo já citado sabonete. De forma parecida, resorts elegantes nas praias e charmosos hotéis no centro histórico de Havana contrastam com as residências do estado, em péssimo estado de conservação. Pelo visto, a riqueza gerada por visitantes de todo o mundo ainda não se converteu em benefício visível para a população. Não queria, porém, discutir os rumos que os guerrilheiros de Sierra Maestra deram ao país após a vitoriosa revolução de 1959 e, sim, refletir sobre o nosso próprio “quintal”, nosso país.

Assim como em Cuba, uma visita ao belíssimo litoral entre Maceió e Recife, revela, além de praias lindas, o mesmo contrate entre os resorts de luxo e povoados de casas miseráveis que os circundam. A economia da região é outro ponto comum com Cuba. Além do turismo, o litoral do nordeste é extremamente dependente do cultivo da cana de açúcar, atividade que emprega o grosso de sua mão de obra de forma temporária, pagando salários de fome e baseando sua competitividade na exploração de pessoas, muitas vezes, em condições degradantes.

O turismo, ainda que promova certa melhora às pessoas ligadas à atividade, ainda não constitui uma solução. Devido ao despreparo – leia-se educação – da população local, o papel que a ela é destinado ainda é o subalterno, como os serviços de garçon, de limpeza e afins, enquanto os maiores empreendimentos como as pousadas, bares e restaurantes se encontram, invariavelmente, na mão de estrangeiros ou de brasileiros vindos do “sul maravilha”.

E é justamente revendo a situação da educação e do analfabetismo que se revelam Brasis diferentes. Dados de 2008 do IBGE revelam que o nosso país ainda sofre com um preocupante 10% de analfabetismo (vale lembrar que em Cuba, onde falta o sabonete, a taxa é próxima de zero). Esses 10%, porém, abrigam “países” diferentes. Enquanto Norte e Centro-Oeste se encontram perto dessa média, Sul e Sudeste estão próximos de 5% e no bonito Nordeste a taxa bate em assustadores 19%. De cada cinco pessoas, uma não sabe ler. A análise dos dados também revela a clara – e esperada – correlação negativa entre renda familiar e analfabetismo, isto é, quanto maior a primeira, menor o segundo. No Brasil, em famílias com renda acima de dois salários, a taxa é de somente 2%. Difícil é entender qual é causa e qual a consequência. Porém, é fácil saber que a renda não vai crescer se a educação não melhorar.

Ainda que o Brasil esteja passando por um momento sem precedente em sua economia, parece que ainda coexistem no mesmo berço esplêndido países diferentes. Resta saber se estamos, de fato, no caminho certo no que diz respeito a educação. Fica, porém, o temor de que, para as classes e oligarquias dominantes, o melhor seja manter essa massa na ignorância. Afinal, mantendo os horizontes limitados, os votos continuam fáceis de conquistar e a mão de obra, necessária para manter suas indústrias, plantações e casas, barata.

(Texto publicado no Jornal das Lajes, Maio/2010)

domingo, 25 de abril de 2010

A incerta definição de “terrorista”


A expressão “terrorista” passou a fazer parte do nosso cotidiano com muita força desde os atentados de 2001. Notícias sobre diversos ataques sempre chegaram ao nosso Brasil, porém, assistir ao vivo um Boeing 767 se colidindo com uma torre do World Trade Center foi algo muito forte. A subseqüente “Guerra ao Terror” e as invasões do Afeganistão e Iraque fizeram do termo um habitué nas manchetes e discussões.

O que tem me chamado a atenção, porém, é o aparecimento do termo na esteira das discussões do Plano de Direitos Humanos, a criação da Comissão da Verdade e em assuntos correlatos, como o recente julgamento do general argentino Reynaldo Bignone, último ditador daquele país e que foi condenado a 25 de prisão por crimes como violação de direitos humanos durante o regime (vale a pena ver a ótima matéria no blog de Ariel Palácios em http://blogs.estadao.com.br/ariel-palacios/ha-25-anos-comecava-o-‘nuremberg’-argentino/).

Quando se fala em investigar os crimes cometidos por militares, várias pessoas questionam o porquê de não se fazer o mesmo com os “terroristas” que por aqui também cometeram crimes e foram responsáveis por mortes de civis. Coloquei o termo entre aspas porque gostaria de discutir a definição e mostrar que está longe de ser simples dizer o que é um terrorista.
Na maioria dos casos, a designação ou rótulo “terrorista” é colocado em indivíduos ou organizações que usam de métodos violentos em nome de alguma causa, que pode ser justa ou não. A questão é que, na maioria dos casos, a história e o tempo é que darão o veredicto sobre a validade dessa causa e se o custo dos métodos adotados pode ser maquiavelicamente perdoado (“os fins justificam os meios”).

Como membro da ala armada do African National Congress, Nelson Mandela liderou no início dos anos 60 uma campanha de atentados a bomba na África do Sul em sua luta contra o Apartheid, regime opressor e discriminatório. Em seguida, ele seria condenado por essas atividades e, após a sua saída da prisão, se tornou símbolo da resistência que pôs fim ao regime. O curioso é que o rótulo de terrorista dado pelo governo sul-africano e a ligação com o ANC, suposto grupo terrorista, fez com que Mandela precisasse de uma autorização especial do Secretário de Estado norte-americano para entrar no país até 2008, quando tal restrição foi retirada.

De uma das regiões do globo onde mais se fala de terrorismo, o Oriente Médio, vem outro caso similar. Até os anos 70 e 80, quando os atentados terroristas tomaram dimensões maiores, o caso que havia feito mais vítimas até então foi a bomba explodida no hotel King David (Jerusalém, Israel) em 1946 e que fez mais de 90 vítimas. Atentado em Israel soa como obra de árabes, certo? Não. O atentado foi organizado pelo Irgun, grupo que lutava pela independência de Israel e um de seus líderes era Menachem Begin, futuro Primeiro Ministro e ganhador do prêmio Nobel da paz pelo acordo de paz selado com o presidente egípcio Anwar Sadat em 1979. No atentado pereceram militares ingleses, que usavam parte do hotel como uma base de comando, e também civis. Nem por isso, o feito deixa de ser celebrado nos dias de hoje como um dos marcos da independência de Israel apesar de ter sido condenado até por algumas lideranças israelenses na época.

Longe de fazer uma apologia ao terrorismo ou julgar esse ou aquele ato – até porque, como eu disse, normalmente a história se encarrega disso – gostaria de deixar somente esse ponto de interrogação para quem usa a expressão “terrorista”: a diferença entre o terrorista (pessoa ou grupo) e o herói nacional não seria uma questão de diferenças de ponto de vista entre vencedor e vencido ou opressor e oprimido? É preciso mais reflexão antes de usar o termo.

sábado, 13 de março de 2010

Essa metamorfose ambulante


O ano de 1989 foi, de fato, um ano de acontecimentos. A primeira Guerra do Golfo, queda do muro de Berlim, a Revolução de Veludo na antiga Tchecoslováquia e o protesto seguido de massacre na Praça Celestial, em Pequim, apenas para lembrar alguns. Entre nós, triste nota, perdíamos o ícone do rock nacional, Raul Seixas.

Nascido Raul Santos Seixas, esse baiano descobriu o rock ainda criança, através do rei Elvis Presley. Com o grupo que viria a se chamar “Raulzito e os Panteras”, conquistou a Bahia e a oportunidade de ir para o Rio de Janeiro, onde lançaram um disco com o nome da banda. O disco fracassou, mas Raul ganhou nova oportunidade, desta vez como produtor e compositor de artistas como Jerry Adriani, Sérgio Sampaio, entre outros. O sucesso viria finalmente em 1973, com o antológico álbum Krig-ha, Bandolo! que continha, entre outras, Ouro de Tolo e Metamorfose Ambulante.

Nesse álbum Raul conseguiu imprimir o estilo que marcaria sua obra: letras elaboradas, que iam do autobiográfico ao irônico, passando, é claro, pela contestação do mundo materialista e de nossa sociedade sob uma ditadura militar feroz. A experiência como produtor trouxe para a obra de Raul uma estética apurada e arranjos de grande qualidade e em Krig-ha não foi diferente. A marca impressionante, porém, que se sobressai nesse disco – e que também seria levada por toda sua carreira – é a sua metamorfose ambulante, mais do que bem explicada por Raul em sua música homônima.

A metamorfose a qual me refiro é a musical. Explico: Raul pautou sua vida e obra em cima do bom e velho rock’n roll, encarnando a essência do roqueiro rebelde. Entretanto, nunca se prendeu a uma fórmula pronta e conseguiu como poucos artistas de rock – nacional e internacional – transitar com desenvoltura entre vários estilos. Em Krig-ha, e não foi diferente em seus outros discos, Raul vai de baladas como How Could I Know até músicas de protesto como Rockixe e o baião Mosca na Sopa.

Em toda sua obra estiveram presentes estilos musicais diversos, muito além do próprio rock. Fora a marcante influência nordestina, Raul também flertou com o samba, bolero, música sertaneja e, quem diria, até com o tango. E a metamorfose se manifestou também no estilo de suas letras e mensagens. Ainda que Raul renegasse e criticasse determinados rótulos como o de “Música Popular Brasileira” – “acredite que eu não tenho nada a ver com a linha evolutiva da música popular brasileira” – ou de músicas de protesto, ele também navegou por aquelas águas, sempre com seu humor irônico e afiado. Suas letras incluíam também reflexão pessoal e existencial, letras autobiográficas e outras marcadas pela crítica e contestação de valores pequeno-burguês de nossa sociedade materialista.

Raul conseguiu viver essa metamorfose musical sem se valer de clichês e sem repetir fórmulas, além de pautar seu trabalho sempre pela mencionada qualidade musical, o que, com certeza, coloca sua obra no nível dos grandes nomes do rock’n roll. No mundo do rock poucos conseguiram transitar em diferentes universos com tanto brilho e consistência e sem se repetir. No cenário nacional podemos lembrar alguns nomes como Rita Lee, Titãs, Cazuza e Barão Vermelho. No mundo, poucos como os Beatles, Rolling Stones e Eric Clapton conseguiram mesclar estilos e se reinventar de tempos em tempos.

Na sequência de Krig-ha viria uma série de álbuns igualmente fantásticos como Gita, Novo Aeon e Há 10.000 Anos Atrás, além de tributos ao rock, como em Raul Rock Seixas e 30 Anos de Rock. No final dos anos 70 e nos 80, Raul alternou ótimos discos como Abre-te Sésamo com outros de menor impacto. Finalmente, após passar um tempo sem gravar ou fazer shows, lança, em 1989, o bom Panela do Diabo, parceria com Marcelo Nova, do Camisa de Vênus. A voz já estava desgastada pelo consumo de álcool, cigarros e drogas. A pena e a veia roqueira, entretanto, permaneciam afiadas e Raul mostrou mais uma vez que ainda compunha músicas sintonizadas com seu tempo, como em Pastor João e A Igreja Invisível, ao invés de repetir temáticas que um dia lhe renderam frutos.

No dia 21 de agosto do agitado 1989, porém, a metamorfose ambulante se transmuta mais uma vez. O ser de carne e osso torna-se lenda do rock e da música brasileira.

Texto publicado no Jornal das Lajes, Dez/2009