sábado, 17 de fevereiro de 2018

Viola para todos os gostos

Fevereiro é quando descobrimos qual é o hit do carnaval que nos vai ser enfiado goela abaixo em doses cavalares. Para quem procura outros sons, vou falar de mais dois bons lançamentos ainda de 2017. Quem me segue sabe o quanto admiro a viola caipira. E motivos não faltam. É um instrumento que tem um timbre único e muitas possibilidades, muito além da música caipira. E para ilustrar essa versatilidade, os dois trabalhos mostram a viola em terrenos distintos: a música caipira tradicional, chamada atualmente de “raiz”, da dupla Índio Cachoeira e Santarém, e o som instrumental de Ricardo Vignini, que coloca a viola e seus ponteados a serviço de estilos como o rock e sonoridades de música celta ou nordestina.

O nome do álbum, “Ponteando Tradições”, de Índio Cachoeira e Santarém, já explica o que vamos ouvir. Música caipira tradicional no melhor estilo de dupla bem entrosada e que desenvolve seus temas apoiados pelos contracantos e solos da viola. Ambos são músicos experientes nesse cenário, já tendo participado de duplas como Cacique e Pajé, no caso de Cachoeira, e com o violeiro Tião do Carro, no caso de Santarém. O repertório é predominantemente autoral e os cantores assinam nove das quinze faixas. As temáticas, por sua vez, remetem aos clássicos de viola: ora a vivência em um idílico ambiente rural, ora o lamento do caipira que foi obrigado a abandonar o campo para sofrer na poluída cidade grande. Não faltam também referências sempre presentes na música caipira como as festas na roça, as populares e as religiosas como a folia de reis e a dança de São Gonçalo.

E há também uma peça instrumental, “Lamento Latino”, de Índio Cachoeira. Sou grande admirador do seu trabalho e do seu virtuosismo como instrumentista. Autodidata e luthier que fabrica os próprios instrumentos, Cachoeira carrega toda uma tradição de grandes violeiros e é dono de uma técnica singular e impecável. Recomendo muito ouvir seus dois discos de solos de viola caipira. Enfim, “Ponteando Tradições” é um disco que precisa ser ouvido por quem gosta da música caipira tradicional e por violeiros que querem estudar os ritmos como o pagode de viola, cururu e as modas.

Ricardo Vignini tem uma história bem diferente. É um roqueiro de origem, mas que em determinado momento encontrou e abraçou a viola. Aí fica a dúvida se ele trouxe a viola para o rock ou o rock para a viola. Ele vem fazendo há um bom tempo com o violeiro Zé Helder a dupla Moda de Rock, onde interpretam clássicos do rock com duas violas caipiras e sobre o qual já escrevi. É um autêntico trabalho de fusão de estilos por valorizar nos arranjos os ritmos típicos de viola. Em seu último trabalho, o disco “Rebento”, ele mostra o devido respeito à linguagem caipira, mas sem se prender a estilos e sempre deixando claro a sua veia roqueira. Seja em músicas onde o rock seja a tônica, como em “Beijando o Céu”, onde faz uma homenagem nada disfarçada a Jimi Hendrix, ou nos seus solos e ponteios em músicas que remetem à música caipira como “O Bonde dos Fontes”.

O disco conta com participações especiais que deram um colorido muito legal, como a gaita de Sérgio Duarte e a percussão do veteraníssimo Marcos Suzano, ambas na faixa “Pé Vermelho”, além da criativa percussão de André Rass, parceiro de Vignini em seu outro projeto, a banda “Matuto Moderno”. Merece nota também o belíssimo piano de Ari Borger em “Ventos de Novembro”, mostrando que a viola conversa bem com outros instrumentos harmônicos. Vignini com seu disco confirma que a viola caipira não só está passando por um renascimento e um crescimento sem precedentes, mas também que sua sonoridade permite navegar em mares que passam longe da música caipira, sem limite de rótulos ou ortodoxias de estilos.

E assim a viola segue expandindo limites e nos encantando com sua sonoridade. Seja no trabalho tradicional de Índio Cachoeira e Santarém, ou na renovação promovida por Ricardo Vignini, a certeza é que esse instrumento vai continuar nos surpreendendo.

(Publicado no Jornal das Lajes, fevereiro/2018)

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Pedras que (ainda) rolam

Ao falar de música sempre há que se pagar um tributo aos clássicos. Ainda mais quando um clássico volta em edição especial, que traz um “gostinho” da reunião de dois ícones. Um dos ícones é um dos maiores guitarristas de rock e blues de todos os tempos: Eric Clapton. O segundo, e dono desse relançamento, são os Rolling Stones. Nos agitados anos 60 os Rolling Stones “rivalizavam” com os Beatles, como uma espécie de anti-Beatles. Enquanto esses, com seus terninhos bem cortados, ainda tinham uma aura de bons moços, os Rolling Stones eram o oposto. A imagem da rebeldia e a personificação do espírito do rock.

Essa rivalidade, porém, era mais imagem e rixa de fãs empedernidos e os membros das bandas eram próximos. Dizem as lendas que os Beatles teriam dado um empurrão para a assinatura do primeiro contrato dos Stones com a gravadora Decca. Em um dos maiores erros da história dos negócios, a Decca ficou famosa como a gravadora que recusou os Beatles por não acreditar no seu futuro. Um dos Beatles teria alertado a Decca para não deixar passar outra banda. Saindo do terreno das lendas para o dos fatos, o segundo compacto dos Stones seria lançado com a faixa “I wanna be your man” de autoria de....... John Lennon e Paul McCartney.

O disco do relançamento é “Sticky Fingers”, que acho um dos melhores dos Stones. Em 1968 a banda havia dispensando um de seus fundadores, o guitarrista Brian Jones, que sofria com problemas possivelmente ligados às drogas e ao álcool. Para seu lugar foi recrutado um jovem guitarrista que havia se destacado na banda de John Mayall, Mick Taylor. Antes de Mick Taylor entrar, haviam lançado o excelente disco “Beggar’s Banquet”, prenúncio da ótima fase que viria. Com a nova formação começavam os que foram, na minha opinião, os melhores anos dos Rolling Stones em termos de qualidade dos discos. Na sequência viriam “Let it bleed”, “Sticky fingers” e “Exile on Main Street”. Não por acaso “Exile…” recebeu recentemente uma reedição de luxo e agora chega a vez de “Sticky Fingers”.

Lançado em 1971, o disco veio com uma capa inovadora, de autoria do renomado artista Andy Warhol. A calça retratada na capa vinha com um zíper de verdade. Provocante e insinuante como só os Stones sabiam ser. O disco, porém, vai muito além da capa e traz uma sequência de faixas incríveis, com os Stones em sua melhor forma. As principais influências da banda estão lá: o blues tradicional de “You gotta move”, o country de “Dead flowers”, belas baladas como “Wild horses” e o mais puro rock’n’roll de “Brown sugar” ou “Can’t you hear me knocking”. O disco fez sucesso instantâneo e alcançou o primeiro lugar na Inglaterra e Estados Unidos rapidamente. Essa reedição trouxe um segundo disco com versões alternativas e algumas ao vivo. É curiosa a participação de Eric Clapton em “Dead flowers”, tocando um slide (quando se usa uma peça de metal ou vidro no dedo e a faz deslizar sobre as cordas ao invés de pressioná-la contra o braço da guitarra). Primeiro, porque Eric Clapton nunca foi propriamente um especialista desta técnica e segundo porque a faixa alimenta outra lenda da época, de que Clapton teria sido cogitado para o lugar de Brian Jones. Se é verdade ou não, é impossível não pensar como teria sido os Rolling Stones com Clapton na guitarra. Ainda há uma versão “Super Deluxe”, com um terceiro CD com faixas gravadas ao vivo em um show em 1971, logo antes do lançamento do disco. Não poderia faltar a versão em vinil, que voltou a moda com tudo. Essa versão, porém, veio sem o famoso zíper. Falta de criatividade? Ou seria porque nos dias de hoje ninguém mais se choca com o que aquele zíper sugere?

Voltando à inevitável comparação entre os Beatles e os Stones, eu diria que Mick Jagger e Keith Richards nunca fizeram um disco elaborado e da qualidade de “Abbey Road” ou o “Sergeant Pepper’s Lonely Hearts Club Band”. Porém, os rapazes de Liverpool não conseguiram fazer um álbum com tanta energia e que fosse uma injeção de rock na veia, tal como “Sticky Fingers”. Só mesmo os Stones para criar faixas tão vibrantes como “Bitch” ou “Brown sugar”. Na dúvida entre os Beatles e o Stones, não pense: vá com as duas bandas. E não deixem de ouvir “Sticky Fingers”

O fazedor de rios

Sempre digo nesta coluna que a música brasileira vai bem. Criativa, original e ainda emocionando. Porém, sempre alerto de que o caminho para encontrar essa boa música não são mais os tradicionais (rádio, TV ou prateleiras de disco nas grandes lojas de varejo). O caminho tradicional foi tomado, com raríssimas exceções, por títulos das grandes gravadoras, que investem pesadamente em marketing para oferecer ao grande público trabalhos de qualidade nem sempre garantida. O mundo digital abriu novas possibilidades não só para a gravação, mas também para o financiamento, divulgação e difusão. O disco, objeto dos comentários desta coluna, é o melhor retrato desse novo caminho trilhado pelo artista independente.

Em uma passagem recente por BH vi o anúncio do show de lançamento do álbum “O fazedor de rios”, do artista mineiro Luiz Gabriel Lopes. Bem recomendado pelo amigo e “informante musical” Luiz Henrique Garcia (dono do ótimo blog sobre música “Massa Crítica Música Popular” - confira em http://massacriticampb.blogspot.com.br/), fui eu para o show. Chegando lá, ao ver algumas figuras relevantes da cena musical atual de BH no público, logo pensei: “vai ser coisa boa”. E foi ótimo. Um show leve e de ótimo astral, excelente banda acompanhando um artista com muita presença de palco e artistas convidados que agregaram muito. Não conhecia o trabalho de LG Lopes, a não ser alguma coisa que já havia escutado do grupo do qual ele faz parte, o “Graveola e o Lixo Polifônico”, e fui surpreendido pelo trabalho de um artista completo. Afinal, não é sempre que se vê alguém que canta e toca bem e é um compositor de primeira, tanto em termos de letras, quanto música (ele assina, sozinho ou em parceria, todas as 12 faixas do álbum).

Saí do show com o CD na mão e pude ouvir com cuidado suas as músicas e o seu trabalho. A base instrumental do disco é razoavelmente enxuta. LG Lopes é acompanhado, na maioria das faixas, além do seu próprio violão, por alguns sopros, a base de um cavaco ou o charango (instrumento de cordas típico dos Andes) e uma competente e empolgante “cozinha” de contrabaixo, bateria e percussão. Base enxuta, porém, muito bem arranjada e que garante uma cama e tanto para LG Lopes desenvolver suas ótimas melodias e letras. Destaque para os ótimos trabalhos de sopro, bateria e percussão. O disco tem várias faixas vibrantes como “Maio de Isabel” (que conta com a participação de Chico César nos vocais), “Miúdo” ou “Resistir e Fraquejar”, prato feito para um bom arranjo de sopros ou uma percussão que faz vibrar o corpo e dá vontade de se mexer. O disco ainda tem algumas participações relevantes como os cantautores Gustavitto na ótima “O Homem que Engoliu a Própria Voz” e Laura Catarina, na sublime “Pro Sol Sair”. Em suma, é um disco excelente da primeira à última faixa. LG Lopes se mostra um compositor inspirado e original. Naturalmente, pode-se perceber influências no disco, mas tudo soa com uma marca pessoal muito forte, fator que diferencia grandes artistas da mídia.


E qual foi o caminho que LG Lopes seguiu até chegar a esse disco? Como disse, o caminho do artista independente hoje segue trilhas novas. Produção feita de forma colaborativa, contando com a ajuda de amigos desde a produção até o toque final. Além dos recursos de editais públicos, o artista usou também o financiamento coletivo (a tal da “vaquinha virtual” ou crowdfunding, mais um anglicismo que está pegando por aqui). E fez questão de agradecer no show nome a nome, quem contribuiu via internet. Ficou claro para mim que a turma trabalhando no evento (portaria, venda de CDs e afins) eram amigos. Assim como os músicos da banda, já que alguns tocam com LG Lopes em outros projetos. E eu ainda me lembro de ver nas vésperas do show um post do artista pedindo a ajuda de alguém para fotografar o evento. E assim se lança um artista independente nos dias de hoje: no peito e na raça. Só espero que LG Lopes siga firme no caminho e traga logo mais um belo trabalho. Quer conhecer o disco? Confere lá no site do artista o download gratuito: http://www.lglopes.com/. Satisfação garantida.

domingo, 21 de janeiro de 2018

O “Disco do Tênis”

Em 2017, comemoram-se 45 anos do primeiro disco solo de Lô Borges, aquele apelidado de “Disco do Tênis” por conta da inusitada capa que retrata seu surrado par de tênis. Um disco gravado por um jovem que completava 20 anos naquele momento e, apesar da pouca idade, já tinha mostrado do que era capaz no lendário “Clube da Esquina”, gravado em parceria com Milton Nascimento no ano anterior.

Para comemorar o aniversário e resgatar esse importante disco da música brasileira, o músico e compositor – e profundo conhecedor da música do Clube da Esquina – Pablo Castro convenceu Lô Borges a lançar um show executando o álbum na íntegra e com seus arranjos originais. Diga-se de passagem, foi a sua primeira execução ao vivo, pois Lô Borges, como mostrarei mais abaixo, nunca fez uma turnê do disco e se afastou da música por um tempo após o seu lançamento em 1972. Assim, antes de falar do show, é preciso contar um pouco dessa história.

Lô Borges havia acabado de gravar seu primeiro disco, o “Clube da Esquina”, no qual assinou oito canções em uma verdadeira seleção de obras-primas que inclui, entre outras, “Nuvem Cigana” e “O Trem Azul”. A gravadora Odeon apostou as fichas no seu talento e assinou com Lô Borges um disco solo, para sair na sequência. O compositor tinha, porém, pouca bagagem e estava, literalmente, com o baú de composições vazio. Entretanto topou o desafio e gravou o “Disco do Tênis” em um ritmo frenético. Com o estúdio já agendado, a rotina era pesada, como ele descreve no seu depoimento ao site Museu Clube da Esquina: “é um disco que eu fiz sob pressão. [...] Eu não tinha as músicas para fazer o disco, então eu compunha a música de manhã, o Márcio Borges fazia a letra à tarde e à noite eu ia para o estúdio e botava na roda para os músicos fazerem os arranjos comigo”. Durante o show, ele contou que teve música para a qual ele mesmo foi obrigado a fazer a letra momentos antes de entrar em estúdio, por não ter um letrista disponível.

Após o lançamento, Lô Borges estava esgotado e resolveu se afastar do mundo da música e shows para amadurecer como compositor. O resultado foi um hiato entre o “Disco do Tênis” e o seguinte, “Via Láctea”, que saiu somente em 1979. Além disso, o “Tênis” ficou sem uma turnê de divulgação, o que foi um dos motes para o resgate proposto por Pablo Castro, ao recrutar a banda e dirigir o show. Esse resgate foi mais do que oportuno, não só pela qualidade artística de um grande disco, mas também pelo seu valor histórico. O álbum é um retrato do nascimento e consolidação do Clube da Esquina como um movimento musical que revolucionou a música brasileira com suas harmonias inusitadas, novas temáticas de canções e a fusão da MPB com influências como o rock dos Beatles.

O resultado foi um show que fez justiça ao disco pela fidelidade aos arranjos originais. E isso por si só é um desafio e tanto pela complexidade das composições de Lô Borges, que combinam harmonias não tradicionais e melodias nada triviais. Além disso, o músico aproveitou todo o show para contar histórias sobre a composição e gravação de várias músicas, o que deu um ar de uma audição guiada bastante rica, não só pela contextualização das mesmas, mas também por algumas histórias divertidas. É legal ver que a resposta do público foi positiva pela agenda que envolveu várias cidades e pelo ótimo clima no dia do show, quando assisti ao último do ano no fim de dezembro, em São Paulo. Espera-se que o projeto não pare por aí e continue levando esse trabalho, acompanhado da venda do disco em vinil, por esse nosso Brasil, carente de conhecer a história da MPB e seus grandes artistas.

E o disco em si? É assunto para ser retomado em outra coluna, mas fica o convite para o leitor buscar na internet ou plataformas de streaming e descobrir um excelente álbum que mostra o quanto o Clube da Esquina foi inovador e renovador dentro da música brasileira.

(Aproveito para agradecer ao amigo historiador e pesquisador de música popular Luiz Henrique Garcia pela indicação de material de leitura para esse artigo. Para quem curte música, sempre indico visitar o seu blog, o Massa Crítica Música Popular para leituras de qualidade).

(Publicado no Jornal das Lajes, janeiro/2018)

domingo, 17 de dezembro de 2017

Música plena

De tempos em tempos surge a oportunidade de ver um grande show, daqueles que você sai quase sem acreditar na qualidade do que ouviu e maravilhado com os caminhos que a música é capaz de percorrer quando tem artistas de calibre a seu serviço. Eu tive a felicidade de assistir ao show do disco “Dos Navegantes”, lançado esse ano pelo trio incrível composto por Edu Lobo, Romero Lubambo e Mauro Senise e as sensações foram aquelas e outras tantas. São artistas que deveriam dispensar apresentações, mas essa não é a realidade da música popular brasileira, que está fora da grande mídia e não presta o mínimo de reverência que alguns artistas merecem.

Romero Lubambo é um violonista e guitarrista radicado nos Estados Unidos há mais de trinta anos, e lá construiu uma carreira sólida, além de ser um requisitado músico de estúdio. A qualidade e a precisão do seu violão explicam porque ele já tocou com artistas de uma lista que inclui Wynton Marsalis, Paquito D’Rivera, Yo-Yo Ma e muitos outros. Mauro Senise é um brilhante saxofonista e flautista e que também tem no currículo participação em discos e shows da nata da MPB como Egberto Gismonti, Hermeto Pascoal e Toninho Horta. Além disso, fez parte de grandes grupos de música instrumental, com destaque para o Cama de Gato, um inovador grupo de jazz fusion com sotaque brasileiro do qual Senise foi um dos fundadores.

Edu Lobo, por sua vez, é praticamente um capítulo a parte da música brasileira. Com apenas vinte e dois anos conquistou o festival da TV Excelsior com “Arrastão”, uma parceria com Vinícius de Moraes, em uma interpretação que revelou Elis Regina ao grande público. Em 1967 fez história no festival da TV Record ao ganhar com “Ponteio”, uma parceria com o poeta Capinan, concorrendo contra canções que se tornaram históricas como “Roda Viva” de Chico Buarque e “Domingo no Parque” de Gilberto Gil. Depois envolveu-se em alguns projetos que marcaram época como as trilhas dos espetáculos “Arena Canta Zumbi” e de “O Grande Circo Místico”, esse em parceria com Chico Buarque. Edu Lobo é, sem dúvidas, um dos maiores melodistas de música popular – e não estou falando só de MPB – e seu estilo sofisticado influencia compositores até hoje. E a ideia da gravação de “Dos Navegantes” veio justamente após uma homenagem de Senise e Lubambo a Edu no disco “Todo Sentimento”, lançado antes pela dupla e para o qual convidaram Edu para cantar duas canções.

Após a gravação, tiveram a ideia de um álbum somente com faixas menos conhecidas de Edu em uma formação enxuta, o que deu destaque à interpretação de Edu e às suas melodias. Assim, “Dos Navegantes” foi gravada somente com os sopros de Senise e o violão de Lubambo, que é uma orquestra por si só, e o contrabaixo de Bruno Aguilar, além do apoio em algumas faixas da percussão de Mingo Araújo e o piano do grande Cristóvão Bastos. O resultado é incrível e de uma beleza ímpar, o que só confirma o talento de Edu Lobo como melodista e o virtuosismo de Senise e Lubambo. De quebra, Edu mostra qualidade como vocalista, capaz de interpretar as suas difíceis melodias, o que não é tarefa para qualquer cantor. Curiosamente, das onze faixas, somente “Noturna”, o encerramento do disco, é instrumental. As demais são composições de Edu com parceiros antigos: Chico Buarque, Capinan, o mestre das letras Paulo César Pinheiro, Cacaso e Ronaldo Bastos. O clima do disco, não só pela delicadeza do conjunto instrumental escolhido, mas também pelo repertório, é bastante intimista. Com o show não foi diferente, apesar de que ao vivo deram uma apimentada no repertório com algumas canções mais quentes e conhecidas de Edu.

É uma experiência sempre especial ouvir música sendo tocada na sua plenitude: músicos virtuosos, canções de primeira linha e interpretações sinceras. Não é sempre que se reúne um elenco desse quilate, o que confirma a vocação do Brasil para a produção de músicos excepcionais. Pena que muitas vezes o nosso próprio país não os dá o devido reconhecimento.

(Publicado no Jornal das Lajes, dezembro/2017)

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

“Vida difícil de levar”

Seguindo com os bons lançamentos do ano, vou pegar carona na última coluna na qual mencionei o Coletivo Casazul. O disco da vez é de outro artista que faz parte do coletivo, o Luiz Gabriel Lopes, que trouxe à luz o álbum “Mana”. Eu o conheci quando assisti ao lançamento do seu disco “O Fazedor de Rios” e fiquei impressionado com o seu trabalho de compositor – vale destacar a qualidade de suas letras e melodias – e no palco também. Comecei a seguir mais de perto sua produção e a outra surpresa foi a extensão do seu trabalho não só solo, mas com outros grupos.
Luiz Gabriel leva vários trabalhos em paralelo, com destaque para o grupo “Graveola e o Lixo Polifônico” (ou só Graveola mesmo) e o trio “Tião Duá”, além de participação em discos de outros artistas ou mesmo como produtor. Seguindo suas movimentações nas redes sociais, logo se percebe que é um artista que está em constante movimento, tocando em todos os cantos do Brasil e até em excursões para o exterior. E nessa agitação ainda sobra tempo para mais um trabalho solo de qualidade, o “Mana”. O disco, que guarda similaridades com “O Fazedor de Rios”, mostra que Luiz Gabriel tem um trabalho bastante coerente e com uma marca pessoal bem nítida.
Analisando o trabalho de artistas da chamada “nova MPB” e que tiveram algum sucesso comercial, eu fico com uma sensação de que o que predomina é a leveza e doçura das canções. Ambas são importantes e necessárias, afinal, também é função da música nos fazer esquecer das amarguras da vida de vez em quando. Porém, há horas nas quais penso que falta um pouco de energia para que as composições não descambem para a irrelevância e acabem sendo chamadas, na melhor das hipóteses, apenas de “fofinhas”. Luiz Gabriel, por sua vez, consegue fazer um disco que predomina a leveza, mas com músicas que promovem um casamento muito interessante de melodia, ritmo e letra que trazem peso e relevância ao conjunto. Em outras palavras, é o tipo de música que, ao mesmo tempo, faz o seu corpo se mexer com a pulsação, mas também te faz prestar atenção na letra e pensar. Diga-se de passagem, uma combinação que poucos artistas conseguem fazer com frequência e o melhor exemplo talvez seja Gilberto Gil.
Sobre o disco em si, é um trabalho autoral e Luiz Gabriel só não assina uma das faixas, “Matança”, de Augusto Jatobá. O instrumental é econômico, mas de ótimo gosto. Contando, na maioria das faixas, com somente bateria, contrabaixo, flauta e sua guitarra ou violão, Luiz Gabriel mostra mais uma vez que sabe conduzir os arranjos e tirar um ótimo resultado dessa formação enxuta e entrosada. Tal como eu já havia observado em “O Fazedor de Rios”, Luiz Gabriel não se prende a estilos e o disco desfila vários ritmos, do baião a uma tradicional balada, mas sem perder a coerência ao longo do álbum ou soar confuso. Finalmente, é justamente essa coerência que me atrai pelo gosto de se ouvir um álbum que passa longe de ser só um apanhado de canções mas, ao contrário, tem algo que conecta as canções, ainda que seja difícil definir o que traz essa unidade.
Sobre a produção do disco, Luiz Gabriel apostou de novo no financiamento coletivo com recompensas interessantes que incluíam até shows particulares para os mecenas mais generosos. O resultado é mais um trabalho produzido na raça por um artista que sabe se virar. Como citei antes, nas redes sociais logo se vê que, como diz a música, o artista vai aonde o povo está. Com uma agenda agitada, Luiz Gabriel está sempre na estrada, seja com banda ou só com seu violão. E não nos resta nada senão aplaudir o artista que, mesmo tão jovem, já tem uma produção digna de nota e apoiar a sua batalha em um país que prefere reclamar da música empurrada pelos grandes veículos ao invés de se antenar no que está acontecendo no bar ou no pequeno teatro. Como o próprio Luiz Gabriel canta na faixa “Música da Vila”, “vida fácil de artista é difícil de levar”. E que ele siga na luta.
(Publicado no Jornal das Lajes, novembro/2017)

domingo, 29 de outubro de 2017

Destinos musicais: Liverpool

Há um tempo atrás, escrevi sobre cidades que têm por atração turística a música. Na ocasião falei de Conservatória, a cidade da seresta que fica na Mantiqueira fluminense onde já fui duas vezes. Recentemente pude realizar um grande sonho e visitar outra cidade fortemente ligada à música: Liverpool. Quem me conhece ou já leu meus textos por aqui sabe o que os Beatles representam para mim. Muito mais do que admirador, sou um beatlemaníaco, como se diz por aí. Conheci os Beatles ainda bem novo com uma fita cassete gravada por minha tia Rejane, a quem até hoje chamo de “culpada” por essa paixão. Foi amor à primeira audição. Aquele som mexeu comigo de tal maneira que entrei em um caminho sem volta.

Da fita, que se enroscou no toca-fitas de tanto uso, fui atrás dos discos e não parei até ter a discografia completa do grupo. Esse fascínio que os Beatles causam é difícil de explicar, mas, como vou direi mais à frente, é algo que atravessou gerações e ainda continua forte. Liverpool é uma cidade portuária e sempre teve importância histórica e econômica para a Inglaterra. Hoje em dia, entretanto, a história milenar da Inglaterra fica ofuscada pelos últimos sessenta anos, quando aqueles rapazes se conheceram e começaram a tocar ainda adolescentes e ganharam o mundo. Sonho de todo fã, a cidade respira Beatles e estima-se que o turismo ligado ao quarteto injeta anualmente na economia local um bilhão e meio de dólares.

Mais do que ser somente a cidade natal dos “quatro fabulosos”, Liverpool tem uma relação muito estreita com a sua música. Assim, todo beatlemaníaco quer conhecer Penny Lane e tentar entender como um tema aparentemente corriqueiro, um dia típico de uma rua com seu barbeiro, transeuntes e o bombeiro que limpa seu caminhão, rendeu uma canção tão especial. Ou imaginar o que significavam as memórias daquele muro e o portão vermelho de Strawberry Fields, um orfanato próximo à casa de John Lennon. E na verdade não há o que se entender. São a vida e as memórias que acompanharam os artistas. Uma vez em Liverpool pode-se conhecer as atrações por conta própria, de ônibus ou carro, ou se encaixar em alguns dos passeios de algumas horas que visitam esses e outros lugares, como as casas onde os Beatles nasceram ou viveram e suas escolas. O ponto alto da “peregrinação”, na minha opinião, é o lendário Cavern Club, o clube associado ao começo da carreira, quando eles começaram a ficar famosos.

No Cavern Club os Beatles tocaram por noites a fio, às vezes em mais de uma apresentação por dia (foram 292 performances entre 1961 e 1963), inclusive quando suas primeiras músicas já estavam estouradas no rádio e nas vendas. A casa se tornou um ícone e, a partir de então, atraiu shows de outros artistas que despontavam nos efervescentes anos 60. A casa, que lembra uma cave de vinhos e fica no subterrâneo a dois andares abaixo do nível da rua, foi desmanchada em 1973, por conta de uma obra pública do metrô da cidade. Anos mais tarde os planos mudaram e foi possível reconstruir o local, mantendo sua planta e reutilizando boa parte dos tijolos originais para a felicidade dos fãs. Hoje é um bar agitado, onde a música começa ainda de tarde e não fica sem uma banda tocando até altas horas da noite. A plateia é a prova do que eu disse antes: várias gerações reunidas, desde os que viveram os anos da beatlemania até adolescentes. Em um dos dias em que estive lá fiquei impressionado com a empolgação de um grupo de senhoras idosas que dançaram e cantaram ao som das músicas que provavelmente embalaram sua juventude. Em suma, é o lugar ideal para se celebrar tudo de belo que aqueles rapazes, que um dia chocaram o mundo com suas cabeleiras, produziram e nos deixaram de legado.

Não bastasse tudo isso, Liverpool é uma cidade interessante e com atrações não ligadas aos Beatles como museus, igrejas, uma bonita zona portuária revitalizada e o futebol do tradicional time que leva o nome da cidade. De quebra, nos finais de semana tem uma vida noturna agitadíssima e bons bares e restaurantes. Diversão garantida e, é claro, boa música. Boa não. A melhor. “Roll up for the mistery tour”.

(Publicado no Jornal das Lajes, dezembro de 2015)